O suplemento Y, do Público, arrisca-se a ser considerado marginal. Chama para a primeira página
Jacques Tati, a propósito da edição em DVD da cópia restaurada de Playtime. Estas decisões pagam-se e não me admirarei se o suplemento vier a sair do jornal, porque só eu e 999 leitores é que damos valor às matérias lá incluídas.

Para quem quiser saber mais sobre
Tati, há o
site oficial. Não saltem a introdução. É preciso tempo para a ver, tal como os filmes dele, mas vale a espera.
Tati fascina-me desde criança. Primeiro, ouvia o meu Pai falar com grande entusiasmo de "O meu tio". Depois, ouvia os primos mais velhos contarem as peripécias do filme. Finalmente, na adolescência, vi o Playtime numa sala enorme e com meia dúzia de espectadores. Deve ter sido por isso que
Tati teve que vender a própria casa e abdicar dos direitos dos filmes anteriores para pagar dívidas. A cidade construída para rodar o filme,
Tativille, devia ter ficado de pé com escola de cinema e salas de exibição. Foi tudo demolido, sepultando as folhas com o argumento.
Tati refugiou-se num apartamento em Paris. Deprimido, à beira da derrota. Felizmente ainda reagiu a tempo de fazer mais dois filmes (um na Suécia -
Estocolmo continua a ver-se daqui).

O Natal anuncia-se cinzento.
Devia ser branco, mas isso deve ter sido na época de "
White Christmas". Bing Crosby, abnegadamente, continua disponível para aquecer a mais negra noite de Natal. Quem sabe, talvez o
Tatischeff me bata à porta. Desajeitado, pega no telecomando e envia-me para um canal onde
Crosby canta pela 50ª vez. "I'm dreaming of a white christmas ...". E a rua fica branca. E depois os telhados e as árvores, o jardim. Ficamos em silêncio, atrás dos vidros, a olhar. À meia-noite ofereço-lhe um Porto branco. Tati diz-me então a primeira e última palavra da noite:" Merci".
Acordo no frio da manhã seguinte e afinal há gente na casa. Conversas animadas. Livros recebidos na véspera, folheiam-se agora. Fotografias. O calor na cozinha, com as criadas a fazerem o almoço.
Volto à janela e o
Tati desce a rua. Pára. Bate o cachimbo na sola do sapato e segue. Sózinho, como sempre.
Bing Crosby - White Christmas1.MP3