Alpha - Come From Heaven (Blitz)
Aprendemos, ao longo dos tempos, que o selo de uma editora não chega, por si só,
para conferir a um qualquer disco um inegável padrão de qualidade. Também aprendemos,
por outro lado, que existem nomes de casas que, por norma, implicam uma criteriosa
selecção de discos a editar. Embora não possamos fazer desta segunda ocorrência
o mote para uma teoria genralista e inrefutável, o certo é que nomes como Mo´Wax,
a Grand Royal ou a Irma Records foram criando à sua volta uma imagem de relevância
na actualidade que se saúda. O disco que aqui se apresenta, "Come From Heaven",
é uma das edições primeiras da Melankolic, a editora propriedade dos Massive Attack,
eles próprios fabricantes de grandes composições dos anos noventa. Pode, portanto,
estar aqui o embrião de uma notável carreira editorial.
Colocando, então, de um lado as ligações deste disco à industria musical, o mínimo
que pode escrever-se é que a estreia, em álbum, dos Alpha se reveste de uma luxuriante
natureza estética, abrindo caminho a partir do ponto em que ficaram os mais glorificados
subscritores do trip-hop, o duo Portishead.
Não sendo sensata a aventura de considerar este um disco mais futurista que todos
os outros editados pela "tropa de Bristol", até porque no núcleo mais ou menos alargado
de trip-hoppers e pós-trip-hoppers consta o nome de Tricky, saliente-se que este
é, pelo menos, um disco totalmente novo, um disco em que a técnica de reciclagem
é posta em prática como em poucos outros, num processo pejado de deleite que ultrapassa,
em muito, o espaço onde as coisas são criadas.
"Come From Heaven" é um disco que resume muito do que a música deste século
albergou no seu imenso espaço. É um álbum que, pegando na soul e na densidade das
batidas hip-hop fumegantes e acompanhadas por ambientes saturnos que marca a vida
do trip-hop, nos transporta para uma terra de ninguém. Encontramo-nos, depois de
nos deliciarmos vezes sem conta com as construções entre o caleidoscópio e o tenebroso
da dupla constituída por Colin Dingley e Andy Jenks, num local sufocante de tão
belo e assustador de tão despojado. A essência, aquilo que fica quando admitimos
ser possível a convivência com a mais depurada das verdades, é aquilo que resta
depois da exploração de "Come From Heaven". As vozes convidadas para "Come From
Heaven", pertença de Wendy Stubbs, Helen White eMartin Bernard (que consegue, deliciosamente,
lembrarnos os registos do malogrado Jeff Buckley), bem como os samples construídos
a partir de material de Burt Bacharach ou George Gershwin, ajudam a compor um ramalhete
de canções (ou melodias, já que aqui os conceitos absolutos perdem relevância, como
relevância perde tudo o que não é realmente belo) que soam incrivelmente familiares,
São-no, na realidade, porque é de canções como "Rain" e "Nyquil" que esperamos todos
os dias. Aprendemos a construí-las em étereos quadros de flutuação interior. Aprendemos
a sentir saudades de canções que não conhecemos. Agora elas existem, como terão
existido sempre. A diferença é que neste momento conhecêmos-lhe o nome e o cheiro.
Pedro Gonçalves, Blitz (4/5), 1997
