Alpha - Come From Heaven (Público)

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Dizem que eles vêm do céu. Mas o paraíso é um lugar onde é suposto
estar-se bem. Por isso, não acreditem. Esta música parece mais o último grito
de socorro de uma epopeia trágico-marítima que acabou mal, muito mal. Ao pé
do oceânico véu de melancolia que os Alpha estenderam para si próprios,
grupos como os Tindersticks fazem figura de surfistas sorridentes.

Mais um produto do fascinante e quase inesgotável cadinho de Bristol, os Alpha
gravam para a editora recentemente fundada pelos Massive Attack. No entanto, as
semelhanças entre estes dois taciturnos rapazes que aqui se estreiam e a
luxuriante arquitectura sonora dos autores de "Blue Lines" ficam-se
pelo mero vislumbre de uma irmandade comum, patente numa estética aparentada,
mas à qual as angústias impuseram uma irresistível deriva. Como os londrinos
Archive, que circulam em rotas similares, os Alpha são uma dupla de produtores
e manipuladores de som aos quais se juntam cantores em processo de comunhão
estética. Embora muito os distinga daqueles, já não há aqui discursos
hip-hop, nem viagens de sabor vagamente psicadélico a colorir a paisagem.



A imensidão existe, mas é possível recriá-la nume cela diminuta e num único
instante. Os Alpha ousaram o visionário cometimento de imaginar o trip-hop que
só se julgaria possível num mundo donde toda a esperança tivesse desertado. A
sumptuosidade orquestral que percorre todo o álbum é um veículo de languidez
e um passaporte para a soturnidade. Os samples de mestres da "música de
'charme'" como Burt Bacharach, Michel Legrand e Francis Lai são
aprisionados num fôlego único, subtraídos à dinâmica original e recriados
numa toca de lobo. A prova final, de que é possível encerrar sinfonias numa
cave e só de vez em quando abrir uma portinhola para deixar os violinos
respirar. Canções que evoluem em torno do mesmo motivo orquestral,
lamentosamente repetido  numa permanente desdita a que só as vozes vão
dando luz. Tão denso e insuportável como um "requiem", este disco
imagina o que seria o naufrágio de um paquete com os instrumentos da orquestra
já abandonados e espectros no lugar dos músicos tocando a mesma frase até ao
final dos tempos, até ao último dos abismos. O que fornece o sampler, afinal,
senão o fantasma de uma música que já existiu?



O maravilhoso "Titanic" que os Alpha insistem em pôr a navegar no
meio de destroços de uma música perdida conta com brilhantes timoneiros. Vozes
que soltam por entre o nevoeiro o clarão dos faróis. Martin Barnard esboça o
que seria Scott Walker em registo obsessivo nesse monumento que é "Sometime
Later". Helen White desbrava um "Summertime" de Gershwin retido
numa curva rítmica; transforma-o em "Slim" e converte o Verão onde
é bom viver num Inverno de chuva e sombras. Wendy Stubbs recupera em "Somewhere
not here" o motivo já explorado por Barnard e propõe uma surtida
temerária à linha do horizonte semeada de perigos. Aí o navio despede-se.
Provavelmente a orquestra prosseguirá o mesmo andamento, do outro lado do
mundo. Quando nada restar sobre as águas, a música dos Alpha ainda ecoará
debaixo das ondas. Ouvir "Come From Heaven" é como ter medo do mar:
primeiro estranha-se, mas depois entranha-se ...

Nuno Corvacho, Público (9/10), 1997