Arcade Fire @ SBSR (Público)

A
expectativa era muito elevada, mas os Arcade Fire superaram-na num concerto
notável, anteontem, no festival que termina hoje com TV On The Radio, Interpol
e Scissor Sisters
Que
concerto! As expectativas eram muito elevadas. Mas os Arcade Fire
superaram-nas, anteontem, no primeiro dia do segundo acto do Super Bock Super
Rock, num concerto imenso, com cerca de vinte mil a celebrar, cantando em coro,
gritando, saltando. À volta dos canadianos existe imenso ruído, chavões
romantizados que quase eclipsam aquilo que realmente são - um colectivo de
músicos intensos capaz de criar canções rock que expõem emoções complexas de
forma simples, servidas por um som majestoso, mas ao mesmo tempo frágil e de
impacto directo.
Música rock emotiva, ordenada por entre o caos por nove músicos que empunham
múltiplos instrumentos (cordas, sopros, bandolim, percussão, acordeão, órgão,
guitarras, baixo, bateria) e trocam de posições entre si, com capacidade para
ser compartilhada por uma multidão, sem perder integridade. Em disco funciona,
mas é ao vivo, pelo facto dos seus membros serem da estirpe que se expõe sem
subterfúgios, que ganha uma ressonância inaudita. E, nesse sentido, sim, é uma
imensa celebração da vida, forma de partilha como só num concerto rock à flor
da pele é possível, como nenhuma outra banda à sua volta consegue evidenciar
nos dias de hoje. Não é para quem se prostra atrás, defensivamente. É para quem
quer estar o mais possível perto do palco, disponível.
Esses, logo aos primeiros acordes de Black mirror, reagiram, percebendo de
imediato que não seria um concerto qualquer. Mesmo para quem já os havia visto,
foi uma daquelas noites que não se repete, entendimento perfeito entre palco -
com o cantor Win Butler, incansável, nos agradecimentos - e assistência, com
toda a gente a participar nos coros e a entoá-los entre canções. Com uma
veemência avassaladora, e sem momentos menores, foram ouvidas canções
referentes aos dois álbuns (Funeral de 2005 e Neon Bible de 2007), como No cars
go, Une Année sans lumiére, (Antichrist television blues) ou Intervention.
Gaza em Montreal
Pelo meio, Win diverte-se, contando que na zona onde habita, na cidade de
Montreal, se sentiu como estivesse na "faixa de Gaza", durante a final do Euro
2004 em futebol, pelo facto de ficar entre um bairro de portugueses e de
gregos, que disputaram o derradeiro jogo da competição. Mais à frente, sugere
que o público se mude para o palco, elogiando o seu apoio, pelo facto de
prolongarem os coros já depois das canções terem terminado.
No palco há cortinas vermelhas e ecrãs dispersos entre os músicos que projectam
a imagem da bíblia em néon, numa alusão ao título do último álbum, mas não há
grandes distracções. Às vezes parece que a forma vigorosa como estes músicos se
entregam ao ritual vai abrandar, mas logo de seguida ouve-se Neighbordhood #1
(Tunnels) ou (Power out) e um som saturado, imponente, verte tudo à sua volta.
À frente, Win, guitarra em punho, canta, vocifera, enquanto os restantes
parecem cavalgar com instrumentos de cordas e coros subidos ao máximo, enquanto
gritam também e o público grita com eles. Há cumes épicos em Rebellion (lies),
vozes esganiçadas, guitarras lancinantes e sumptuosidade teatral em Keep the
car runing. No final tudo desemboca num imenso grito colectivo - Wake up.
Perfeito.
Antes os londrinos Bloc Party, apesar de festejados pelo público, foram
desiguais. Eficazes e refrescantes sempre que apresentaram as canções rock
concisas do primeiro álbum, quase sempre muito calculistas quando abordaram as
canções mais formatadas do segundo, apesar dos esforços do vocalista Kele
Okereke. Os ingleses Magic Numbers surpreenderam. Nem sempre a sua folk-pop
solarenga e psicadélica se consegue distanciar das influências, mas conseguiram
criar um saudável ambiente festivo.
Para serem excelentes faltou aos também londrinos Klaxons afastarem-se um pouco
mais da sonoridade do álbum Myths Of The Near Future, recriarem-na mais. Por
vezes, ficaram demasiado colocados ao disco. O facto de tocarem durante o dia
também não ajudou ao seu rock hedonista que também se dança. Mesmo assim
confirmaram que não são um fenómeno passageiro.
O último dia
Hoje é o último dia do festival e o cartaz tem muitos motivos de interesse, com
destaque para a brigada americana. Em estreia em Portugal apresentam-se os The
Gossip [19h05] da vocalista Beth Ditto, os TV On The Radio [20h10],
responsáveis por um dos melhores álbuns do ano passado, Return To Cookie
Mountain e os também nova-iorquinos Interpol [23h05], que vêm apresentar o seu
novo longa-duração, Our Love To Amire. Da mesma cidade vêm também os sempre
festivos Scissor Sisters [21h20], que ainda não há muito tempo esgotaram o
Coliseu dos Recreios em Lisboa. O evento encerra, em regime de festa de música
de dança, com os britânicos Underworld [00h45]. Os Micro Audio Waves [17h35] e
os X-Wife [18h10], são os representantes portugueses.
Público,05.07.2007, Vítor Belanciano
