Arcade Fire @ SBSR (JN)
Tal como já ontem referimos, o segundo dia do
festival Super Rock pautou-se por um decréscimo de adesão de público - 20 mil,
sem números oficiais - em relação ao primeiro dia. Isso teve as suas vantagens
circulou-se melhor pelo recinto, não se viram grandes filas nos bares e, à
saída, o escoamento de trânsito foi muito mais rápido.
Só os comerciantes desatinaram. "São todos uma cambada de tesos", protestou, ao
JN, José Carlos, um dos responsáveis pela loja "Pontos no Is", onde tenta
despachar t-shirts à módica quantia de 5 euros. "Eles só querem o que um gajo
não tem", barafustou, descontente com os gostos esquisitos e com o fraco poder
de compra da juventude indie. Não haja dúvidas a plebe não veio aqui às
compras. Aquilo que os moveu foi tão pura e simplesmente a música. E para essa
noite aguardava-se uma música enorme, uma música sublime - a música dos Arcade
Fire.
Em Agosto de 2005, os Arcade Fire aterraram pela primeira vez em Portugal.
Passearam pelas caves do vinho do Porto, subiram à Torre dos Clérigos e
protagonizaram uma inolvidável actuação num final de tarde em Paredes de Coura.
Agora, quase dois anos volvidos, os canadianos regressaram com novo disco na
bagagem "Neon Bible" é um trabalho que não reúne o mesmo consenso que o
anterior. Mesmo assim, foram os responsáveis pela vinda de grande parte das
pessoas ao segundo dia do Festival Super Rock. Passavam poucos minutos depois
da meia noite quando a super-banda fez a sua aparição num palco decorado com
ecrãs circulares afunilados. Das colunas soltaram-se os primeiros acordes de
"Black Mirror" e, a partir daí, tudo desaguou para hora e meia de consagração.
Em cena, o colectivo troca amiúde de instrumentos Regine Chassagne, por
exemplo, tão depressa está de acordeão ao peito como se senta na bateria. Houve
megafones e secção de sopros. Canções eternas como "Haiti", "Intervention",
"The Well and the Ligthouse", "Rebellion (lies)", ou, entre muitas outras,
"Keep the car running".
A celebração acabou num pico de comoção com "Wake up" - milhares de mãos
erguidas ao ar, como se as vozes do povo se soltassem, também, pela ponta dos
milhares de dedos que riscavam o vento. Foi uma actuação magnífica e
consensual. Os Arcade Fire são, seguramente, uma das melhores bandas da
actualidade.
Momentos antes, os Bloc Party assinaram uma prestação algo idêntica àquela que
vimos ainda há poucas semanas no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. Mais uma vez,
o público reagiu bem à presença do vocalista Keke Okereke, sex-symbol que deixa
as teenagers tolas enquanto encosta os lábios ao microfone. O Super Rock
termina hoje com mais uma maratona musical no qual se destacam os TV on the
Radio e Interpol.
Cristiano Pereira, César Santos, Jornal de
Notícias, 2007-07-05
