Arcade Fire @ SBSR (DN)
Não houve propriamente nenhum mau concerto no arranque do segundo acto do
Festival Super Bock Super Rock, mas tudo poderia resumir-se à presença dos
Arcade Fire, no encerramento da noite. Pena que o público tivesse sido apenas
metade do da noite dos Metallica.
Há todo um sentimento de partilha e celebração da vida mesmo quando Win Butler
(o vocalista) aborda temas tão duros quanto a morte ou a perda. Nesta família
canadiana não há espaço para segregações e o palco é um espaço quase secular de
transmissão de fé para uma imensa minoria que se identifica com os seus
valores. É rock, sim, pela energia que brota dos instrumentos, mas a inclusão
de cordas altera substancialmente a carga dramática que normalmente é associada
a uma banda de guitarras. Inteligentemente, a escolha do alinhamento é perfeita
para um festival, isto é, são dispensados os "adereços" (leia-se temas menos
orelhudos) em favor do essencial, que passa por Intervention, Black
Mirror ou No Cars Go já no encore.
Cenicamente, nenhum pormenor é deixado ao acaso. Cinco telas circulares
projectam a Bíblia de néon da capa do disco enquanto Win Butler ostenta numa
das suas guitarras expressão haitiana Sak Vid Pa Kampe ("saco vazio não
se aguenta em pé"). Mas é sobretudo das canções que os canadianos vivem, numa
sensação de crença inabalável naquilo que estão a fazer e que chega a
transcender em alguns momentos a música e o som.
O mínimo que se pode dizer dos Magic Numbers é que foram surpreendentes, até
por se tratar da banda menos mediática da noite. Pegando na tradição de
sessenta dos Beach Boys, usam a melodia como arma para despertar um sentimento
de felicidade próprio da infância. E assim, muitos dos que não os conhecem
acabam rendidos à sua ideia de inocência.
Mais polémicos mas também enérgicos, os Klaxons dão razão àquela personagem do
Gato Fedorento que aponta a hora do lusco-fusco como a próxima a ser explorada
pelas discotecas, e abrem uma autêntica pista de dança sem grande esforço.
Melhores do que em disco, nota-se uma evolução no definir de um som que, não
sendo completamente genuíno, não é, pelo menos, vulgar.
Já os Bloc Party conseguem muitos aplausos graças a canções sobejamente
conhecidas como Banquet ou Two More Years, mas nunca chegam a ser
completamente consistentes durante o resto do alinhamento.
Ao início da tarde, Bunnyranch e The Gift cumpriram perfeitamente a ideia de
aquecer um ambiente ainda calmo.|
DAVIDE PINHEIRO, NUNO FOX (imagem)
