Pode não ter sido a primeira vez que escrevi isto, mas encontrei-o agora mesmo numa folha saída de um caderno onde anotei ideias para o princípio da IF. Para mim, é um pouco da minha vida. Para os seguidores da IF, poderá ser uma curiosidade. Para os outros, certamente, não são mais do que palavras rabiscadas num papel. Como aprendi com Cortázar, se alguém encontrasse esta folha, o mais provável era usar o verso para tomar nota da chave do totoloto. Ou, quem sabe, para embrulhar um ramo de salsa que se foi buscar à mercearia. Cortázar era mais radical ( ai pois era ...). Para ele, tratava-se de um jornal. Depois de passar por várias mãos, uma velhota encontra-o e leva-o para casa. No caminho usa-o para embrulhar meio quilo de nabos, que é para o que os jornais servem depois destas excitantes metamorfoses.




Now I think I know

What you tried to say to me

How you suffered for your sanity

How you tried to set them free

They did not listen they're not listening still

Perhaps they never will.




Don McClean escreveu e cantou "Vincent". Talvez seja ( não parecia ) um bocadinho piegas. Seja como for, diz a verdade.
Esta noite na IF.

Há sempre alguém que se lembra. Por isso não estou sózinho.







"...and this is how you can be walking and falling at the same time." Laurie Anderson.







Johnny Cash. 1932 - 2003.



Há uns posts atrás, escrevi a letra de uma canção de Cash. Quase desde o princípio que passa na IF, através de Nick Cave. Esta noite também.



I'm a child of this age

Locked into the pages of your book

And when I am but dust and clay

And all the children stop to take a look



Will they marvel at the miracles I did perform

And the heights I did aspire

Or will they tear out the pages of the book

To light a fire



With the rain on my face

There is no place that I belong

Did you forget this fucking singer so soon?

And did you forget my song?




O título original é "The folk singer ". Tenho uma velha cópia em vinil. Uma noite destas, quem sabe, passará na IF. A mudança dos tempos escuta-se num pormenor. Cash, no disco, pergunta " Did you forget this folk singer so soon? ". Nick Cave pergunta o que está aqui em cima.

A primeira vez, que me lembre, em que ouvi Johnny Cash, foi numa faixa que ele canta a meias com Bob Dylan no álbum "Nashville Skyline". O disco que me chamou até ele foi " At San Quentin (The Complete 1969 Concert [LIVE]. No meu juvenil entusiasmo, naquela época, só pensava em sair do país. Quando Cash cantava " San Quentin i hate every inch of you ... ", e os presos para quem ele cantava explodiam em aplausos, eu sentia-me também daquele lado. Devo-lhe esta solidariedade longínqua.



ÍNTIMA FRACÇÃO

13 / 14 de Setembro de 2003



# Leonard Cohen : Love calls you by your name

# Lambchop : I'm glad i never

# Lambchop : The daily growl

# Velvet Underground : Sunday morning

# Astor Piazzolla : Liber tango

# Kraftwerk : Prologue

# Red House Painters : Instrumental

# Tindersticks : Until the morning comes

# Alpha : As far as you can

# Blue Nile : From a late night train

# Jeanne Moreau : India song



# Belle and Sebastian : Night walk

# Paddy McAloon : I'm 49

# Roger Eno : Swimming

# Belle and Sebastian : Fiction (reprise)

# Barry Adamson : Everything happens to me

# Nick Cave and the Bad Seeds : The singer

# Smog : Sweet treat

# Cat Power : Wild is the wind

# Laurie Anderson : Walking and falling

# Montgolfier Brothers : Inches away

# Guy Béart : Vous

# Tom Waits : I'm still here



créditos sobre # The Box Tops : I'm your puppet

música suplementar # Antenna : Memo



Textos



" A música desencadeia o alento para prosseguir em pleno desconhecido, onde só às apalpadelas é possível continuar. "

" Chegar às palavras é já ter-se perdido de si-mesmo. As palavras são um ser-no-mundo, um artifício para revelar o irrevelável."

" Os ouvidos, e os olhos; e os ouvidos, e os olhos; e os ouvidos ... O caminho repete-se eternamente, e tudo está já dito, desde sempre, desde o princípio que tudo foi dito, e só nos cabe repetir os ouvidos, os olhos escutados, repetir, e ser escutado. É preciso ir até à exaustão dos ouvidos para alcançar a visão dos olhos. "

" Tudo aquilo de que sou capaz de desistir deixa de me interessar. Interessa-me apenas o inabdicável. "

" O problema é : como passar aos actos necessários ? Como ganhar força para abandonar o lago de silêncio, para deixar o paraíso ? "

" O final, a conclusão do ciclo, o círculo per-feito : a música. Nada há que eu entenda, nada há que eu seja, que eu alcance. A música, universal e neutra, só ela persiste, impessoal, imorredoura." ( João Wiborg )




A notícia sobre os bilhetes esgotados para o espectáculo dos Stones, deixa-me à vontade para dizer alguma coisa sobre o assunto. Mas estou sem forças para desenvolver argumentações. Mesmo assim, ao chamar-lhe espectáculo e não concerto, já devo ter dito alguma coisa.

Eu queria era ter visto os Rolling Stones em 1965 ou 66.





Agora, o melhor que posso fazer, é dar uma pequena prenda de consolação aos que não conseguiram bilhete. Se espreitarem aqui, vêem o Estádio em tempo real. O "único" problema é que o palco vai ficar de costas para a câmara. Talvez se veja o Mick Jagger a levar a transfusão de sangue antes do espectáculo ( como fazia o Viren, aquele atleta finlandês que bateu o Carlos Lopes na última volta ).
A Natureza do Mal diz que o meu " par espantoso, maravilhoso " é a Íntima Fracção. Todo o post é maravilhoso e deve ser lido. "Par espantoso".




" Por favor, não desistas, continua para o lado da aurora, prossegue o caminho da claridade. Por favor, não voltes para trás, não adormeças. Fica cristalino, diamantino, por favor, o futuro virá, virá o momento da voz, o fulgor cândido dos olhos. "



( extracto de uma carta recebida em Setembro de 1986, a propósito da Íntima Fracção )
A Íntima Fracção vê-se e sente-se.







" La belle dame sans merci " Sir Frank Dicksee.
Afinal, a Íntima Fracção vê-se.







Écran do editor onde se compõe a Íntima Fracção.
ÍNTIMA FRACÇÃO

6 / 7 de Setembro de 2003



# Paddy McAloon : Sleeping rough

# Red House Painters : Instrumental

# Red House Painters : Summer dress

# The Doors : Summer almost gone

# Pearls Before Swine : The wizard of is

# Smog : A Guiding light

# Alpha : Portable living room

# Murcof : Mes

# Kraftwerk : Prologue

# The Langley Schools Music Project : Desperado

# Múm : Sleep - Swim

# Sondre Lerche : Things you call faith



# Blue Nile : From a late night train

# Montgolfier Brothers : Dream in organza

# sons em estrutura de ligação : Chopin - Étude (Tristesse); Enya (Waterfall) com ruídos captados em ruas

# Brian Eno : Julie with ...

# Virginia Astley : From gardens where we feel secure

# For Stars : There was a river

# Paddy McAloon : I'm 49

# Paddy McAloon : Fall from grace

# Lambchop : Autumn's vicar



créditos sobre # Harry Belafonte : Try to remember

música suplementar # Penguin Cafe Orchestra : Telephone and rubber band



Textos



" Subitamente o vento uiva e bate à minha janela fechada. O céu é uma rede coalhada de peixes sombrios. Aqui vêm

soprar todos os ventos, todos.

Aqui despe-se a chuva.

Passam fugindo os pássaros. O vento. O vento. Eu só posso lutar contra a força dos homens. O temporal amontoa

folhas escuras e solta todos os barcos que esta noite amarraram ao céu.

Tu estás aqui. Tu não foges. Tu responder-me-ás até ao último grito. Enrola-te a meu lado como tivesses medo.

Porém mais que uma vez correu uma sombra estranha pelos teus olhos. "



[ Íntima Fracção ] " deixa-me lembrar como eras então, quando ainda não existias ". (P.Neruda)







Este pode ser o lago de Narciso. Para quem o vir assim, basta espreitar e conferir a imagem que lhe é devolvida.

Não procuro o lago. Tento compreender as relações, complexas, que se estabelecem através da IF. A maior parte dos mails que recebo, a propósito do programa, são fortemente emotivos. Tenho consciência do que faço. Não entendo é como é que sendo a rádio um meio tão propiciador à criação de ilusões e acima de tudo de momentos efémeros, a emoção se mantém, persiste.



" EU CONTINUO DO OUTRO LADO DO PROGRAMA, EMBORA VOCE NAO ME CONHECA..EU SEMPRE ESTIVE ALÍ. "



" INTIMA FRACÇÃO é, sem dúvida, para mim, mais de que um programa de rádio de muita qualidade. É, também a expressão de um deus, apesar de eu não ser uma pessoa religiosa ... "



" O que eu quero dizer com isto é que eu não chorei por ter deixado [ ... ], eu chorei como uma criança abandonada quando, nesse sábado para domingo, ouvi pela última vez, o seu programa. Porquê isto? ".




Estes três exemplos, retirados de mensagens pessoais, mostram bem o que atrás disse. Eu tento compreender e se existe alguma comunidade cujo ponto comum seja a IF, é esta a hora. Preciso saber.

I'm lost, yes I am lost.

And duty will not track me down;

And duty will not track me down,

asleep among the trees.




( Paddy McAloon )



As "Histórias Urbanas" da Capital da Cultura, não apetecem só pelos filmes.

Vejam o grafismo.



A propósito de um comentário colocado no post sobre o disco que contém o indicativo da Íntima Fracção.

Ainda não entrei na venda de memorabilia. Por enquanto ! Nunca se sabe se não virei a precisar ...




Venezuela à noite, vista do céu. Onde estará o ouvinte da Íntima Fracção que lá vive e me enviou um mail a pedir TODOS os programas desde 1994 ?

Brevemente, talvez, possa ouvir aí mesmo a Íntima Fracção.
Este "movimento blogístico" ( já sei que há quem pense que não há movimento nenhum ... ) tem atraído uma considerável miríade de "estrelas" habituadas aos spot-lights mediáticos. A maior parte é gente que vale a pena ouvir, mesmo quando se discorda. Mas há um grupo que, embora curioso e entusiasmado em ver no que tudo isto dá, se mostra reservado, ou mesmo abertamente contra. Julgo que não têm blogs (claro !), mas utilizam as suas tribunas habituais para deixar críticas ou simplesmente desconfianças. A última veio de Medeiros Ferreira no DN. Segundo este "colunista", tudo não passa de uma versão nova para qualquer coisa que a literatura portuguesa sempre teve : os diários, as reflexões. É verdade. Tão verdade como essa literatura já tinha sido influenciada por coisas vindas do passado. É impossível que assim não seja. Trata-se aqui (blogs) de aproveitar uma nova tecnologia e poder disponibilizar os conteúdos, de imediato, para quem os quiser conhecer. É a diferença.

Para além destas constatações, discordo em absoluto, da ideia que Medeiros Ferreira tem : " ... os blogues dos nossos cibernautas pouco tratam de sentimentos. Estão mais virados para a descoberta da luta política por conta própria. Porque será?". Os sentimentos passam no quotidiano de um generoso número de blogs. Quanto à "luta política por conta própria", já estou de acordo. Para a pergunta de Medeiros Ferreira, há inúmeras respostas, dependendo dos blogs que, supostamente, visitou.
Recomeça hoje o ciclo de cinema "Histórias urbanas", incluído na Capital Nacional da Cultura - Coimbra-2003.



Escolho já "O anjo azul", "A regra do jogo" e "A ultrapassagem" de Dino Risi. Este é um filme que tem para mim um fascínio (só) aparentemente inexplicável. 15 de Agosto de 1962 - Roma. Partida para uma viagem até tão perto e, no entanto, que nos leva tão longe. Preto e branco. Culto. Os anos 60 latinos antes da invasão anglo-saxónica. Os primeiros sinais de desencanto.



The Singer

(Cash, Daniels)



por Nick Cave



As I walk these narrow streets

Where a million passin feet have trod before me

With my guitar in my hand

Suddenly I realize nobody knows me



Where yesterday the multitude

Screamed and cried my name out for a song

Today the streets are empty

And the crowds have all gone home



I pass a million houses

But there is no place that I belong

All I knew to give you

Was song after song after song



All the truths I tried to tell you

Were as distant to you as the moon

Born 200 years too late

And 200 years too soon




I'm a child of this age

Locked into the pages of your book

And when I am but dust and clay

And all the children stop to take a look



Will they marvel at the miracles I did perform

And the heights I did aspire

Or will they tear out the pages of the book

To light a fire



With the rain on my face

There is no place that I belong

Did you forget this fucking singer so soon?

And did you forget my song?









Esta é a capa do CD, editado em 1990 pela EMI-Valentim de Carvalho, " A UM DEUS DESCONHECIDO ", da SÉTIMA LEGIÃO. Nele está contido o tema que serve de abertura à Íntima Fracção ( indicativo ) : Mar de Outubro.

O LP original foi publicado em Julho de 1984, pela editora Fundação Atlântica. Tenho ainda comigo o exemplar que foi utilizado durante anos.

O LP original inclui dois temas editados em Setembro de 1983. Portanto, rigorosamente há vinte anos.

Há uma garantia histórica absoluta. As primeiras IFs não tiveram este indicativo, porque o belo instrumental da Sétima Legião, foi gravado e produzido por Ricardo Camacho, em Paço de Arcos, em Maio de 1984. O modelo base da IF é o actual, tendo a primeira emissão ido para o ar a 8 de Abril de 1984, na Antena 1 da RDP. Devido a algumas opiniões divergentes com sectores da direcção, o formato IF ficou parado desde Maio até Setembro de 84, embora a IF tenha sido sempre transmitida. Foi o modelo originalmente proposto retomado em Setembro de 1984 já com este indicativo, que se manteve na Antena 1 até Setembro de 1989.

Com a minha saída da RDP para a TSF, a IF foi comigo, já que é um programa de autor. A sua tranmissão foi retomada na TSF depois de Janeiro de 1990.

Durante o primeiro mês de emissões ( Abril de 84 - RDP ), o indicativo da IF foi " Radio Prague ", no LP " Dazzle Ships " dos OMD ( Orchestral Manoeuvers in the Dark ) - 04/03/1983



Com estas indicações espero ter respondido a todos os que me solicitaram, ao longo dos anos, informações sobre o indicativo da Íntima Fracção.
ÍNTIMA FRACÇÃO

30 / 31 de Agosto



# Kraftwerk : Prologue

# Slowdive : Here she comes

# Alpha : Made in space ( samplers )

# Alpha : Saturn in the rain

# Lambchop : Bugs

# A Guy Called Gerald : The first breath ( slow IF mix )

# Angelo Badalamenti : Dinner Party Pool Music

# Lee Hazlewood : Try a little tenderness

# Jerry Orbach : Try to remember ( extracto )

# The Buggles : Video killed the radio star ( short remix )

# João Gilberto : Aos pés da cruz

# Beth Gibbons : Romance

# Cowboy Junkies : Blue Moon

# Departure Lounge : Equestrian skydiving



# Alpha : Sleepdust

# Alpha : Lipstick from the asylum

# Beach Boys : Let's go for awhile (instr.)

# Paddy McAloon : I'm 49

# The MDH Band : Funny face

# Ryuichi Sakamoto : Forbidden Colours (piano solo)

# Roger Eno : Through the blue

# Lambchop : Catapiller

# Martin Rev : Whisper

# Alpha : A perfect end



créditos sobre # Johnathan King : Everyone's gone to the moon

sampler TV "The song that never ends"



# Fantasticks : Try to remember

# Antenne : Memo



vozes de Roland Barthes e Marshall McLuhan




Empurre a imagem. Abre-se a janela para ver e ouvir Lou Reed (live ) em palco, numa noite feliz de Julho.
How can we hang on to a dream

How can it, will it be, the way it seems




Tim Hardin, no mítico e profético 66.



Foram-me soletradas as sílabas que me levaram ao fórum que injustamente esqueci.




Era então este o mês de Marte !? O momento que só há 60.000 anos se tinha visto.

Agora, Marte afasta-se. Não sei se é assim ou se somos nós que nos afastamos de Marte.
I am telling myself the story of my life,

stranger than song or fiction.

We start with the joyful mysteries,

before the appearance of ether,

trying to capture the elusive ...




( Paddy McAloon - I trawl the megahertz )

A propósito do farol que, ali em baixo, me tenta guiar até à costa, um marinheiro colocou nas ondas um belo álbum do galego Prado - " Traço de giz ". O trabalho de faroleiro está de acordo com uma escuta da IF.



Talvez a IF seja uma série de microgramas.

Quando me descobrem, é difícil não me revelar.
Na ÍNTIMA FRACÇÃO da noite, à procura de um sinal, da intimidade de uma esperança.







RESISTIR. Acreditar no amor por aquilo que se faz.

Compôr com sons, palavras, músicas e silêncios, deve ser o desígnio da RÁDIO.

Como qualquer obra, não partilhada, não faz sentido.




Paddy McAloon - I Trawl The Megahertz



Aqui está um disco que faz acreditar em que o talento não morre.

Paddy McAloon é o génio-pop que criou os "Prefab Sprout". Operado aos olhos porque estava a ficar cego, durante a recuperação, na impossibilidade de ler, dedicou-se a ouvir rádio. A RÁDIO. A tal de que falavamos no post anterior. A de que falamos sempre.

Este disco é quase todo instrumental. O mais correcto será dizer que não é cantado. Só num tema surge ( e de passagem ) a melódica voz de Paddy. Tudo o resto se inspira nos sons da rádio, nas histórias da rádio.

Neste 2003 já marcado por tanta coisa má, aqui está uma coisa boa. Muito BOA !

Lembro-me das primeiras vezes que passei na rádio "Prefab Sprout". Na primeira metade da década de 80, o Gonçalo de Carvalho, na altura na BBC-Londres, enviou-me uns registos em banda magnética e depois os discos.

What happen to Gonçalo ? Depois de abandonar a BBC, sei que foi para Bruxelas. Lembro-me também que sonhava fazer mergulho no Mar Vermelho. Alguém sabe dele ? Devo-lhe (além da amizade) o ter-me proporcionado a primeira visão de neve a cair. Eram umas 6 da manhã e o Gonçalo bateu-me à porta : "não querias ver nevar ?". Subiu e fomos para a varanda ver os farrapos brancos a cair.



Cito aqui um post do Professor Manuel Pinto, no Jornalismo e Comunicação.

" O apagão: Inquietante a fragilidade de um empório tecnológico; admirável a tranquilidade e bonomia nas ruas novaiorquinas; recorrente o medo de uma nova tragédia accionada pelo terrorismo. Tudo isto foi dito. O que não foi dito, ou pelo menos sublinhado, foi que o velhinho rádio de pilhas, o transístor, o auto-rádio, se tornou no meio de comunicação que pôde dar a informação que faltava, nas horas de maior aflição. Como escreve Alberto Dines, no último Observatório de Imprensa: «Considerado por muitos como um dinossauro em vias de extinção, o rádio foi a única fonte de informação capaz de atingir sua audiência. Em Nova York, uma cidade com sistemas de cabo com 500 canais e internet via banda larga, nada como depender de um radinho de pilha para colocar a vida moderna sob uma nova ? ou velha ? perspectiva».

As horas de maior aflição e a RÁDIO.

A proximidade da RÁDIO. A intimidade.

A inultrapassável característica. A essência da RÁDIO.
Infelizmente não consigo responder ao comentário de Leandro deixado no post anterior.

Fui claro ?

Ainda sobre o post anterior, e para não vos inundar com mails, que por serem pessoais é porque os seus autores não querem que sejam tornados públicos, devo dizer que nem sempre foi assim, mas gosto que me tratem por tu.

Há quem me diga, "you are from another part of the world...". A IF, suponho.
Daqui a pouco a IF.

A Íntima Fracção.

Corre o ano 20. Fazer 20 anos devia ser muito mais bonito.

A todos os ouvintes da IF, quero dizer que preciso de vocês. Sou eu que a realizo, mas sou apenas um de vós.

É verdade que nem "boa noite" digo. Mas será necessário ? Não poderei, ao fim de vinte anos, perguntar se algum de vocês me (se) sentiu longe no meio da noite ? Quanto valem as palavras (e músicas) exactas no lugar de "Boas noites" vazias ?

A distância nunca existiu. É esta a verdade da IF. É esta a causa do meu sofrimento.

"Pouco para dizer. Muito para escutar. Tudo para sentir."

Três noites nas Termas.

Não encontrei as conversas animadas entre oficiais de alta patente na reserva e respectivas esposas.

Calma, sim.

Uma musiquinha de conjunto barato numa só noite. "Ansiedad" de Nat King Cole, foi o melhor que se pôde arranjar.

A única imagem de filme : um sobrinho espertalhão, cabelo penteado à anos 50, com "Brylcreem", passando uns dias com a tia velhinha. Ao jantar, numa mesa de amigas a "sopa e fruta", distribuia galanteios. Pelo menos cumpria a sua missão !







" ... yourrr eyes arrre full of tearrrrs ... and my heart is full of sorrow ...

the orchestra is getting ready ... OH ! dance with me George ... " ( De-Phazz )



Durante uns dias vou mergulhar à procura de um passado que não conheci. Pode ser uma arriscada viagem à decadência, mas vou a umas Termas e não é pelas águas !

Seguindo a sugestão de um leitor (ouvinte ?) da IF : alguém tem alguma gravação do "Em órbita" da primeira fase ?




Lidar com a memória não é nada fácil. O passado é um território ausente, mas que ainda sentimos. Não é uma consolação dizer-se que enquanto a memória de alguma coisa existir, essa mesma coisa ainda existe. A propósito de "God only knows", a capa do disco que saiu em Portugal foi a da esquerda, aproveitando a capa do LP "Summer days", de 65. Em Portugal, como era habitual, foi um EP. Tinha 4 canções. Ainda não se estava na era dos singles. O LP (Pet Sounds) foi editado com a capa da direita.

Em 2002, Brian Wilson disse que quando compôs "Pet sounds" era " jovem e feliz ". De facto, tinha 24 anos. Deixou os restantes membros do grupo fazerem um "Japanese Tour" e dedicou-se a preparar tudo. Quando regressaram foi só gravar. Esta é uma foto desse tempo.







Veio depois um longo período de grande escuridão. Nunca mais foi capaz de actuar em palco, nem de viajar, nem quase de tomar conta de si. " Uma época assustadora que pensei não conseguiria ultrapassar ". Brian Wilson, era um ser sensível ( como podia ser outra coisa ? ). Psicológica e fisicamente arrasado ( resultado de uma nunca muito bem contada mistura de "aditivos" com "pânicos", ainda longe de serem explicados ) Brian tinha este aspecto quando a vida começou a correr mal ( a obsessão pela resposta a "Revolver" dos Beatles foi conseguida, mas "Smile", que devia ser a "Sargent Pepper ..." nunca mais teve fim).







Vinte e tal anos depois, aparentemente, a recuperação em 1988. Um terapeuta polémico, que assinou todas as músicas em parceria com Brian, no álbum de regresso, teria sido o responsável. Incluindo a factura dos direitos ... Só em 1995 é que Brian terá "regressado" totalmente. E mesmo assim, julgo que o apoio do público foi o melhor tratamento. Chegava a ser comovente como Brian agradecia, admirado, as manifestações de agrado incondicional nos espectáculos que começou a fazer. Para a tournée de 2004, do até agora previsto, o mais perto que vai estar é em Paris (Olympia, eterno ...) e em Antuérpia - Março 04.

Eu gostava de agradecer a Brian Wilson.









Confesso que é um pouco obsessivo.

Tal como a sucessão dos dias e das noites, das estações do ano, este é um disco que parece ter sempre cores diferentes.



A propósito de se dizer que "God only knows" ( Brian Wilson - Tony Asher ) - 1966, dos Beach Boys, foi a primeira canção dita Pop que levou a palavra God (Deus) no título, lá me pus em navegações pela Net. Até agora, não encontrei nada em contrário. O próprio Brian o afirma. O que encontrei foi a indicação de que o single com "God only knows / Wouldn't it be nice" foi posto à venda a 1 de Agosto de 66. Ora o histórico programa da rádio portuguesa "Em órbita" (RCP), tocou-o nesse mesmo mês. O facto, hoje, é normal. Naquela altura não era. O disco estaria à venda nos EUA, provavelmente na Grã-Bretanha, mas aqui não. Diz-se que o "Em órbita" contava com a colaboração de elementos da tripulação de voos internacionais de forma a ser abastecido de ... discos. Por aqui se vê a distância a que estamos dessa época e também a enorme vontade da equipa do "Em órbita" em fazer um programa de rádio muito para além do que era habitual em Portugal. Foi "o" programa de rádio onde gostaria de ter trabalhado. Como não tinha idade, tal como o guitarrista amigo de Sam Shepard, limitei-me a ouvir a música e as vozes de Cândido Mota, de João David Nunes ou até mesmo, numa fase seguinte, de Rui Pedro. Escutei, como se participasse numa cerimónia religiosa, o último "Em órbita" da primeira fase. Foi fúnebre, mas ao mesmo tempo redentor. O "Em órbita", em 1974, já só com Jorge Gil, regressou como um programa sobre música clássica ( talvez o termo mais exacto seja erudita ). Estive à escuta logo no primeiro. E depois foi e veio, mudou de estação, criou concertos e, de rádio, passou a "um conceito". Para sempre.
ÍNTIMA FRACÇÃO

16 / 17 de Agosto de 2003



# Múm : Sleep - swim

# Brokeback : This is where we sleep

# John Cale : I keep a close watch

# Tears for fears : Brian Wilson said

# Beach Boys : sons das gravações em estúdio de Good Vibrations

# The Flying Lizards : Tears

# Pretenders : I go to sleep

# Goldfrapp : utopia ( miss world remix )

# Goldfrapp : Pilots

# sons da banda sonora do filme " As férias do sr. Hulot " de Jacques Tati

# Alpha : Roy

# Brokeback : In the reeds



( longo tema de acerto para o fim da 1ª parte que não constava do registo original da IF )



# Loudon Wainwright III : Motel blues

# Fanny Ardant : A quoi sert de vivre libre

# Jeanne Moreau : India song

# Emilie Simon : Femme fatale ( com Tim Keegan )

# Propaganda : Femme fatale ( the woman with the orchid )

# Nick Cave : Far from me

# Calla : Astral

# Montgolfier Brothers : Inches away

# Frankie Goes To Hollywood : ( do you know the way ) To San Jose

# April March : La piscine couvert



créditos finais



# António Carlos Jobim : Wave
Memórias para ver e ouvir.

Do Verão de 2002. Lambchop, numa noite calma de Agosto, em televisor encontrado a funcionar sózinho.

Do Verão de 2003. Sakamoto e Morelenbaum. Calma e morna noite, num Jardim.

Tudo antes do cinzento que esfumou o azul.
When you wish upon a star



When you wish upon a star

Makes no difference who you are

Anything your heart desires

Will come to you








# Alpha : Stargazing



Resistência.
4 : 30 da madrugada.

Saio do estúdio para, finalmente, encontrar um pouco de ar fresco. Caminhando contra a brisa, pareceu-me que tudo era ainda possível.

Ficou pronta mais uma edição da IF. Normalmente, demoro alguns dias a prepará-la, incluindo pesquisas, escutas prévias, procura ( ou escrita ) de textos e edição. Alguns programas demoraram muito mais. A construção da emissão que ficou designada por " You only live twice - IF mix ", demorou dois meses a preparar. Foi preciso encontrar uma grande variedade de versões, para além de extractos da banda sonora do filme e até um velho spot promocional radiofónico.

Como se fosse um diário ( neste momento não me interessam minimamente as discussões e reflexões sobre o papel dos blogs ), porque o blog da IF é escrito para quem se interessa pela IF, também para todos os que se interessam por mim ( obrigado pelos mails ) e, já agora, também porque preciso de o fazer "por mim" - "para mim" ( ou será que os bloguistas estão convencidos que cumprem um desígnio superior qualquer ? ), reforço a ideia de que se vive um mês de Agosto como nunca houve, ou então já não há memória.

Talvez porque não posso fazer quase nada por alguém que chora pela irreversibilidade da doença de alguém que ama ( como te percebi Cândido Mota, quando "rebentaste" no Passageiro da Noite ). Talvez ainda porque "ouvi" alguém que amo, noite adentro, fugir esbaforida do fogo que lhe cercou os míseros dias de férias. E, até, por ver o envolvimento do refúgio da IF, de verde passar a negro. ( recordar )

Talvez estas sejam justificações. Mas há um sentimento de tristeza generalizado que é, para já, inelutável.

No entanto, o filósofo António Pedro Pita ( tão pouco citado pela intelectualidade portuguesa ... porque ainda novo ? ... porque ainda vivo ? ), referindo-se ao futuro, disse-me numa das conversas da série "Os desafios do milénio" ( TSF - 96/97 ; editadas pela Quarteto - 99 ) : " As coisas se não se passaram, provavelmente também não se passarão exactamente como está previsto, e há sinais que nos conduzem para uma espécie de reconsideração dos elementos compreensivos do mundo, nos quais eu vejo, apesar do banho apocalíptico em que estamos, os meios de prosseguir esta aventura. "



A vulnerabilidade é cada vez maior.



" O optimismo tecnológico e científico desmoronou-se, enquanto as inúmeras descobertas eram acompanhadas pelo envelhecimento dos blocos, pela degradação do meio ambiente, pelo apagamento progressivo dos indivíduos. "



Ainda a recuperação de Lipovetsky.

Neste triste Agosto, o título do livro não me sai da cabeça : A ERA DO VAZIO.

E a frase " pelo apagamento progressivo dos indivíduos " deixa um vazio absoluto na noite. Só se foge, quando se tem para onde.




São estes os bonecos Daruma.

Ao longo dos anos, falados na Íntima Fracção, partindo de um texto de Barthes em " Fragmentos de um discurso amoroso ". Bonecos sem pernas, sem braços e sem olhos, que sofrem incessantes piparotes mas que, finalmente, retomam o seu equilíbrio, estabilizados por uma quilha interior. O poema japonês que os acompanha diz isto : " Assim é a vida. Cair sete vezes e levantar-se oito. "

São dos mais populares talismãs no Japão. Acredita-se que dão sorte.

A maior parte são bonecos, mas há cidades onde são bonecas.

O tamanho original não é nada pequeno, talvez parecido com um cesto para papéis.

Bem sei que não estamos no Japão, mas talvez uma remessa de Darumas viesse a calhar. Quem quiser pedir uma ajuda pode fazê-lo pela internet ...



O excesso de calor, além de me ter avariado a mim, avariou também uma (pequena) parte do equipamento do estúdio-IF. Pequena parte, mas fundamental. O "mágico" João Guedes, desta vez não conseguiu o milagre. "Vai para arranjar". Fui salvo pelo empréstimo precioso feito pelo João Moreira. Como trabalha com o "som de palco" do David Fonseca, apanhei-o em cheio, pelo telemóvel, quando ele vinha do Sudoeste. E fiquei para aqui a pensar que há muita gente que julga que esta vida ( dos espectáculos, da música, ... até dos media ) é só trólaró ! Como estão enganados.




Atravessando sozinho o deserto, transportando-se a si mesmo sem nenhum apoio trascendente, o homem actual caracteriza-se pela sua vunerabilidade.



Esta constatação, com 20 anos, vinda das reflexões de Lipovetsky na "Era do vazio", foi a base para a criação do programa de rádio "Íntima Fracção".

Verifico que quase nada se alterou. Na noite, o céu do deserto é por vezes riscado por estrelas cadentes, pela vinda do cometa que só voltará para os filhos dos filhos dos nossos filhos. Há luares. Promessas de auroras suaves.



É verdade que alguma coisa mudou, mas a vulnerabilidade é cada vez maior.



Sinto também necessidade de dizer que a IF é a forma que encontrei para me opôr a isto : " ... Não tomar partido, não se meter em política, não discutir, não votar, não se manifestar é ... a expressão máxima da ideologia dominante."









ÍNTIMA FRACÇÃO

9 / 10 de Agosto de 2003



# Múm : Sleep - swim

# Múm : Green grass of tunnel

# Cocteau Twins : Lazy Calm

# Lou Reed e Laurie Anderson : As we sleep

# Erlend Oye : A while ago and recently

# Jeanne Moreau : India Song

# Carla Bruni : La noyée

# Keren Ann : On est loin

# Lambchop : The new cobweb summer



# Beach Boys : God only knows ( só vozes )

# Tha Langley Schools Music Project : God only knows

# Múm : Faraway swimming pool

# Doors : You're lost litle girl

# Nina Nastasia : Stormy weather

# Koop : Waltz for koop

# Radar Brothers : Sisters

# Suicide : Cheree

# Yo la tengo : The summer

# Ed Harcourt : From every sphere



créditos finais sobre # Swing Out Sister : Am i the same girl

música suplementar # Third Eye Foundation : What is it with you




Quando, há uns meses, comecei a passar na IF músicas da Carla Bruni, quase que advinhei o que aí vinha. Afinal, foi pior.

O disco da Bruni já vinha com o peso de ter sido "duplo de ouro" em França. O facto é difícil de entender. O disco não é tão bom e, sobretudo, não é tão mau como deve ser um "duplo de ouro".

Confesso que não conhecia a Carla Bruni e isto quer dizer que não sabia mesmo que ela era ( é !? ) como era ( é !? ). Em linguagem "revolucionária em curso" ... é o exposto !

Depois vim a saber que tinha sido modelo topo-de-gama. E que vendeu bem. Só em 1998, quando tinha 30 anos, facturou qualquer coisa como 7,5 milhões de euros. Ainda por cima não precisava dos euros para nada. Nascida em Turim, é herdeira de uma confortável fortuna proveniente das indústrias da família. Foi para Paris aos 5 anos. Andou numa escola na Suiça e, de volta a Paris, foi estudar Artes e Arquitectura na Universidade. Quase no princípio, com 19 anos, abandonou e seguiu a carreira de modelo que, como é habitual numa mulher bonita, nunca lhe tinha passado pela cabeça ! Depois, foi quase tudo quanto alguém do meio pode aspirar, penso eu ... e não é "de que", é mesmo "que". Que Carla Bruni para além de "passar" para as mais célebres marcas e ser das modelos mais fotografadas de sempre ( infelizmente alguas fotos são vulgares ... ), também passou pelos tablóides e revistas pink. Porquê? Dizem que estragou o casamento de Mick Jagger ( qual ? segundo ela, Jagger teve 7.000 namoradas ). Romances com Eric Clapton e até com Kevin Costner, ajudaram. Ah ! e nunca casou. Tem uma irmã que faz cinema, amigos, uma bela penthouse em Paris e uma casinha de férias em St. Tropez. E uma guitarra ... Enfim, uma belíssima imagem para o "marketing".

Só que, e há sempre um "só que" à nossa espera em qualquer lado, a Carla Bruni, para mim não existia. Toda estas histórias, mais ou menos "real estate", ainda bem que nunca me tinham passado pelos olhos. Pelos ouvidos passaram-me músicas do Cd "Quelqu'un ma dit". É óbvio que sussurra porque não pode fazer outra coisa. Se experimentarem ouvi-la num duo com Laurent Voulzy ( Tout les garçons et les filles ), lá se vai a Carla Bruni. Só que não é por causa dos sussurros que eu gostei do disco ( ou para ser mais sincero, de uma parte dele). Este trabalho não tem uma produção de alta costura. É simples. Tem bom gosto ( e nem vou explicar porquê ). Há, evidentemente, uma recuperação do ambiente "chanson naïve" que remete para a nostalgia de Françoise Hardy e até para, em algumas passagens, a boa tradição da canção francesa de autor. Não está tão sózinha como parece. Keren Ann está na mesma linha. E ainda por falar em mulheres bonitas, a fabulosa monegasca, Fanny Ardant, também sem saber cantar, interpreta com um enorme charme elegantemente contido, o blues " A quoi sert vivre libre " do filme "8 mulheres".

Posto isto, duas conclusões :

Carla Bruni não vai vender em Portugal na mesma proporção do que vendeu em França;

prefiro a Bruni na rádio do que as Spears, Aguilleras e ...... cada um que acrescente o que quiser.

Da Bruni fica qualquer coisa. E honra lhe seja feita : é pelo som e não pela imagem.
Uma pequena contribuição para tentar perceber alguma coisa no meio dos "num fui eu" ! Um bocado mais completo aqui.



Pode parecer estranho. Antigamente não havia nada disto, não é verdade ? Pois em 1953 já havia calor e ... AR CONDICIONADO !

Como na intimidade deste pequeno estúdio privativo da IF só há ventoinhas, a conclusão é irrefutável : estou com 50 anos de atraso ...



Um verdadeiro serviço público !

As ventoinhas da IF são gratuitas e já estão instaladas em muitos blogs.

Tentei avançar com mais umas ideias, mas não resultaram. Como podem ver, dotar este blog de gelo permanente, não resultou.







Há sempre muita coisa a acrescentar. Não ao post anterior, mas a todo o blog.

Com uma nova subida da temperatura, o mais acertado é acrescentar ainda mais uma ventoinha !
O Pedro Caeiro, do Mar Salgado, deixou um comentário para corrigir o meu post anterior. As minhas desculpas ao Pedro e a todos os passantes. O Pedro falou em "traficante de pedras preciosas". Eu reduzi as pedras às pérolas. Não foi com a embalagem da traficância, que bem as podia revender a bom preço, desde que as comprasse em sítio manhoso longe do Hotel Lisboa, de Macau. Nada disso. O problema está no ar condicionado. Ou antes. Na falta dele. Este pequeno estúdio onde se desenha a IF, tem sobrevivido à custa da ventoinha. Assim, os sons e as palavras andam disparatados pelo ar e, com frequência, caem no lado errado do teclado !



O Mar Salgado atribui-me a designação de traficante de pérolas preciosas.

Para o bem e o para o mal ... gosto desta actividade !



Compilação de Verão. 54º à sombra.

Para espreitar através de uma janela indiscreta.
As férias tornaram-se uma triste ilusão com a qual se sonha durante meses.

Já não deslizo sobre as águas. Já não vejo o mar ao pôr-do-sol, nem descubro os últimos a sair da praia.

Já não como gelados seja em Cascais, na esplanada da Figueira ou numa gelataria apinhada do Algarve.

Já não canto o "tube" deste ano ( até porque não há UM ).

As férias estão cercadas pela vida, os imponderáveis e pelo tempo. A meio entre o interior queimado e o litoral superlotado.

O Verão deixou de ser um tempo de projectos. Deixou de ser a época das paixões.

As férias não são mais "on the road" e muito menos de "cabelos ao vento", porque cada vez há menos dinheiro para carros descapotáveis. O espírito do filme italiano " A ultrapassagem ", está, claro, ultrapassado.

As férias são agora retratadas por milhares de pessoas a empurrarem-se para tentar entrar nas festas das revistas !

As férias são aquilo que o destino quer e nunca o que se sonhou.

A angústia vem de querermos agarrar o Verão e de ele fugir com as férias.

"Pela restituição do Verão aos cidadãos de boa vontade ... ".



ÍNTIMA FRACÇÃO

2 / 3 de Agosto de 2003

( entre as 0 e as 2 horas )



# Yo la tengo : The summer

# Yo la tengo : How to make a baby elephant float

# Sakamoto com Paula e Jacques Morelenbaum : Vivo sonhando

# Lisa Germano : Into the night

# Antenne : Memo

# Kaada : Care

# Lou Reed : Perfect day ( never ending IF mix )



# Keren Ann : La disparition ( instr. )

# Keren Ann : La disparition

# Laurie Anderson : Life on a string

# Montgolfier Brothers : Fin

# Montgolfier Brothers : Even if my mind can't tell you

# Piano Magic : Dark secrets look for light

# Trash Can Sinatras : To sir, with love

# House of love : Hope

# Lambchop : Backstreet girl

# John Parish : Shrunked man



Textos



" A memória e as expectativas. A nossa vida encontra-se entre as duas. " ( Cristina Fernandes )

" Balouçado ... na sensação das ondas, embalado ... na ideia tão confortável de hoje ainda não ser amanhã, de pelo menos neste momento não ter responsabilidades nenhumas, de não ter personalidade propriamente, mas sentir-me ali, em cima da cadeira como um livro (...) ali deixado.

Afundado, num torpor da imaginação, sem dúvida um pouco sono, irrequieto tão sossegadamente, tão análogo de repente à criança que fui outrora ... quando brincava (...) e não sabia álgebra, nem as outras álgebtras com x e y's de sentimento.

Todo eu anseio por esse momento sem importância nenhuma na minha vida, todo eu anseio por esse momento, como por outros análogos - aqueles momentos em que não tive importância nenhuma, aqueles em que compreendi todo o vácuo da existência sem inteligência para o compreender.

E havia luar e mar e a solidão. " ( Fernando Pessoa - Poemas de Álvaro de Campos )
Sem que eu tivesse tido conhecimento antecipado, a IF desta noite passou entre as 0 e as 2 horas.




O País arde. Em temperaturas e com chamas.

O fogo purificador não é este. Não arde nem a maldade, nem a estupidez, nem a ignorância.

Os bronzeados do costume, de sapato de sola sem meia, com camisa fresca de marca e de frente para um copo cheio de gelo, dirão : " Uma tragédia ! ". Mas haverá sempre um que, para alegrar o ambiente, lançará a última desta gente de perfume caro ( mas enjoativo ) : " Ao menos passámos a ter também a nossa Floresta Negra !!! ". Ah ah ah ah , grande gargalhada no bar do hotel em frente ao mar. Estava salva a noite.

Um ou outro ainda se vai lembrar da velha canção dos Doors : Light my fire.

Subirão aos quartos acompanhados pelas suas barbies. Os carrões estão no fresco da garagem subterrânea.

Ligam o ar condicionado, mas evitam ligar a televisão.

No dia seguinte, ainda haverá uma pequena discussão à borda da piscina. Trata-se de saber se o fogo é de esquerda ou de direita. E as férias continuam animadas ...