Sei porque gosto de ouvir vezes sem fim a versão em piano de "Raining in my heart", por Robert Wyatt, no novo CD dele, "Cuckooland". Nostalgia. O tempo "em que tudo era ainda possível". A sala do piano, ao fundo do corredor, em casa da avó Emília. Os finais de tarde perfumados pelo jardim, com o ar morno suavemente cheio pelo som do piano da madame Borges. A belga corria a persiana da janela da sala, mas deixava os vidros abertos. O bairro, luminoso, devia agradecer, mas os clássicos do fim da tarde pareciam clandestinos. Sempre me apeteceu encostar ao portão da moradia e bater palmas quando ela fechava o piano. Dar-lhe até um amor-perfeito, colhido no jardim da minha casa. Nunca o fiz. Nunca ninguém o fez, embora dissessem "Ah! Que maravilha ... a madame Borges ...". Agora é tarde. Resta-me ouvir o piano tocado pelo Wyatt. Agora, que ele está ali, tenho a certeza, no mesmo estado de alma do que eu.



"Raining in my heart".



"Eles transformaram os telejornais em ficção e o resto são 'reality shows'. Há cada vez menos espaço para coisas sérias, boas e rigorosas" - João Botelho, na abertura do Cinanima.

Apetecia-me dizer uma série de coisas sobre o poder que "eles" têm de construir um mundo hipócrita. Estou demasiado ocupado com a sobrevivência. Não tenho tempo para polémicas que não me dão o bem estar que "eles" sabem retirar para proveito próprio. E, porém, garantem-me, são conservadores e católicos.
A Íntima Fracção - Programa de rádio - começa a parecer distante.

A liberdade conquistada não pode ser esquecida.

O regresso ao éter depende, exclusivamente, do espaço disponível para esticar a mão, no meio da noite, onde rola uma pérola que já não consigo esconder.

"Apenas me interessa o inabdicável."

E assim vai ser.



Está aqui a parte IIc (final) do Köll Concert, de Keith Jarrett, do qual falei a propósito de "A" dos Alla Polacca.



keith jarrett - K lnConcert4_2.MP3



Foi gravado a 25 de Janeiro de 1975. Um improviso absoluto. Há outros concertos a solo que Jarrett gravou e que fazem parte da mesma linha.

Keith Jarrett sofre de "síndrome de fadiga crónica", mas os tratamentos têm resultado e, por isso, está de novo a dar concertos, tendo uma tourné pelo Japão programada para a Primavera de 2004.

Sexta, 14, toca em Seattle (EUA) e já deixou o seu aspecto afro (ele não é descendente de africanos). A cabeleira deu lugar a um corte bem mais curto como se pode ver.



Radio Etiópia ( Patti Smith ). Radio Ga-Ga ( Queen ).

Quantas mais ?

As rádios portuguesas estão vazias. A maioria (refiro-me às rádios de expressão nacional) são RÁDIOS SEM ALMA. A TSF, que ainda marcava alguma diferença, não quis (ou não soube ...) resistir à uniformização da música. A estética radiofónica está moribunda. Noutra estação, passei uma noite a ouvir as horas, a data, e a identificação da rádio. A música era um bocadinho melhor, mas de resto faltava tudo. A linguagem radiofónica deve ser como a cinematográfica. Não há elemento algum que surja sózinho. Há sempre alguma coisa imediatamente antes e outra depois. Ignorar esse "racord" é matar a rádio. Neste momento, está quase ...

Entretenham-se com a Rádio Bolívia. É só mais uma !







Ando a ouvir "A", dos Alla Polacca.



Alla Polacca - A_short.MP3



É verdade que cada vez me lembro mais do Köln Concert, de Keith Jarrett, mas há sempre uma atmosfera nova que me passa pelo coração de cada vez que oiço. Agora foi a do quarto do piano, em casa do Alvim, na Rua de Campolide, há muitos muitos anos. Nas teclas estava a infância a fugir, tão depressa quanto nós queriamos fugir daqui.





Traffic in the global world.
Os Alla Polacca vão-me enviar os discos deles. Espero ansiosamente para ouvir "A".

Enviaram-me um mail muito simpático. Fiquei com a ideia que não conhecem a Íntima Fracção. Também quem é que manda o programa ser tão antigo, mas não se sentir velho ?

A verdade é que também eu não os conhecia e até venceram o Termómetro Unplugged. Imperdoável.



No blog IF-NO-AR, os amigos da Íntima Fracção continuam a postar coisas magníficas.



A Cristina Fernandes colocou lá este texto.



A aurora estende um fumo de bruma sobre os rios e os lagos. É um véu que se entrepõe entre o Sol que se levanta e o seu reflexo, que se espalha na região do ar que o envolve. É o seu próprio calor que torna impossível vê-lo no instante do seu nascimento. Não conhecemos nunca o que começa no seu início. Qualquer causa em nós é recapitulada e fictícia.

Não conhecemos nunca o que acaba no instante do seu verdeiro fim. Todo o adeus é uma palavra que queremos acreditar que conclui. Ora ela não começa nada e nada acaba.




Pascal Quignard



E o Mário, que não conheço pessoalmente (o mesmo com a Cristina), deixou lá esta foto.







Azul aprisionado ?



É com o Mário e a Cristina que se está a projectar uma série de fotos que partem dos ambientes da IF. Dos ambientes, músicas e memórias da IF.

Entretanto está aí a chegar a Colectânea de Outono da Janela Indiscreta, partindo de sugestões dos visitantes e editada por mim. Como inclui voz e, por causa de uma constipação, a minha está boa para "escrever à máquina...", tenho que esperar mais um bocadinho.

Para além dos que já disseram que queriam o CD, quem mais quer ?
A Antena 2 merece um zapping mais frequente. Parece diferente - para melhor.



Às vezes, ainda vale a pena fazer qualquer coisa aqui.

Ontem, ouvi o "Santos da Casa", na RUC (porque será que oiço cada vez mais aquela rádio ?).

Valeu a escuta. Por tudo.

E também porque descobri os Alla Polacca num instrumental chamado "A". Ouvi aquilo no carro, num fim de tarde (já noite) muito chuvoso e com trânsito.

São coisas destas que me fazem ainda não ter emigrado para a Escandinávia, embora saiba que não vêm nas playlist.
"Quis saber quem sou ... o que faço aqui ...". É assim que começa "E depois do adeus", a canção que foi a primeira senha para o 25 de Abril. Pois quase 30 (trinta !!!) anos depois a frase continua com todo o sentido. " ... O QUE FAÇO AQUI" ?

1. Continua-se a ficar admirado e muito contente porque umas eleições correm bem e com muito civismo.

2. Por uma breve distracção, caí nos directos das TVs e pensei que tinha havido eleições antecipadas e os empresários do futebol tinham tomado definitivamente o poder !!!



" ... O QUE FAÇO AQUI" ?
Noite de Halloween.

Nesta época, em Coimbra, há a tradição das crianças irem bater às portas levando uma caixa de sapatos com olhos e boca recortados e com uma vela lá dentro. Também se usaram abóboras. Cantam os "bolinhos bolinhós ...".

Três obstáculos à continuidade da tradição:

- já ninguém tem abóboras numa casa da cidade;

- os sapatos não vêm em caixas;

- há cada vez menos crianças.



"As coisas são como são".

E ainda se acrescenta: " e ponto final !".

Que melhor maneira haverá para explicar este meu súbito regresso a Virginia Astley ? Claro que saiu no final de Setembro uma nova edição do histórico álbum "From gardens where we feel secure". Talvez, sem dar por isso, me tenha chamado de novo a Virginia e os seus sentidos. Mas "as coisas são como são" e aqui estou, como adolescente, a ouvir vezes sem conta "Broken" do álbum "Had i the heavens" (1996).

E porque "as coisas são como são", é que eu julgo que o primeiro histórico álbum de Virginia Astley (Julho de 1983) devia ter sido reeditado com uma pequena modificação no título : em vez dos "jardins onde nos sentimos seguros", devia estar "jardins onde nos sentíamos seguros".

"Broken ... i'm broken". (ninguém me encontra a letra completa ?)



Como se todas as esperanças, há muito esquecidas, não se tendo concretizado, fossem, agora, de novo possíveis.

As esperanças possíveis são muito mais inquietantes do que as esquecidas.



A música avança. Pára. Recomeça. Aventura-se, mas ainda não se decide.

A IF.

Walking and falling at the same time.

Lá por que não está NO-AR, nem por um só momento adormeceu. Reaprende a andar, mas insiste em não utilizar bússolas para a navegação nocturna.




Quem é que no Portugal-2003 tem coragem para fazer um filme como "O meu tio", de Jacques Tati ?
Li num blog (não me lembro qual) que o Roland Barthes tinha escrito nos "Fragmentos de um discurso amoroso" o seguinte : O amor de alguém é um presente tão inesperado e tão pouco merecido que devemos espantar-nos que não no-lo retirem mais cedo.

Ora quem escreveu isto foi a Marguerite Yourcenar no "O tempo - esse grande escultor". São dois livros que quase sei de cor. A IF cresceu à sombra deles.

Já agora que aqui estão, oiçam mais um pouco :

Não se possui ninguém (mesmo os que pecam não o conseguem) e, sendo a arte a única forma de posse verdadeira, o que importa é recriar um ser e não prendê-lo.

...

Só se possuem eternamente os amigos de quem nos separamos.
Se a IF estivesse, agora, no ar estava em passar alguma coisa deste álbum.

"A year to the day". É um grupo de escoceses. The Zephyrs. Há um bocado de slide-guitars a mais, mas também há muitos outros momentos que valem a pena. Não sei ainda por quanto tempo.







Lá pelo meio da década de 80, o João Costa ( um dos mais elegantes e cultos radialistas portugueses, "escondido" na RDP ), que na altura ainda não trabalhava na rádio ( estudava Direito ? trabalhava numa discoteca ? construía candeeiros ? ), emprestou-me um disco imaculado. Duplamente. Era um duplo vinil, com um dos discos só preenchido com temas instrumentais. "Gone to Earth", do David Sylvian.

É ali que está mais uma das referências da IF. Sempre pensei fazer um vídeo sobre a Serra da Estrela com aquela banda sonora. Depois, pensei fazer um trajecto entre a montanha e o mar. Depois ... tanta coisa e ... até hoje !

Vem este post a propósito, se ainda não perceberam, da imagem sobre a noite que a Chris colocou no IF-NO-AR, mas também porque, sempre que posso, aproveito para falar do João Costa. Para ele, a Rádio passou a ser uma profissão e deixou de ser uma paixão ( foi, há quase 10 anos, uma das vítimas da primeira crise "emocional" da TSF ). Nem sei se o João Costa alguma vez esteve apaixonado pela rádio. Não interessa. Uma vez disse-me que precisava de uma profissão para preencher as fichas de registo nos hotéis. Nessas fichas não fica a sabedoria, o bom gosto, a elegância e a criatividade do João. E assim perdemos o que devia estar audível a todos.



Vento, chuva, frio e neve.



manto branco







Fui buscar "A um Deus desconhecido" da Sétima Legião, onde está o indicativo da IF (Mar de Outubro). Procurei o LP em vinil que utilizei nos anos da RDP-Antena 1.

Ouvi o Manto Branco.



Um encanto que acabou

Manto branco sobre a luz

Outro vento que mudou

Manto branco e uma cruz



E dizer

Eu posso sorrir

E dizer

Eu posso fugir

E mentir

Eu posso sentir

ao viver depois de ti



...

Uma herança de mudar

Manto branco pelo chão

Já não te posso tocar



E dizer

Eu posso sorrir

E dizer

Eu posso fugir

E mentir

Eu posso sentir

ao viver depois de ti








É este o disco. O original, com rótulo da RDP (feito pelo Fernando Trigueiros) e tudo. Guardei-o para a memória. Troquei-o por outro exemplar que substituiu este. A imagem é pura memorabilia para seguidores da IF.
A noite de sábado para domingo é a noite original da IF. Mas foi de domingo para segunda que ela percorreu a maior parte do seu percurso até aqui.
Está aqui a gravação integral ( com alguma pub. americana pelo meio, mas enfim ...) da prestação de Jimmy Hendrix no Festival da Ilha de Wight. Isto passou-se em Agosto de 1970. Hendrix morreu dias depois. O que aqui está é um registo daquele momento.

33 anos depois, está quase tudo na mesma. O que é mau. O ambiente dos concertos de massas tem aqui o seu Neolítico. O Paleolítico foi em Woodstock.

Do mal o menos. Já não bebo BB, um refrigerante cheio de corantes e gaz.

Infelizmente já não vou para Campo de Ourique à procura dos discos que não encontrava na Avenida de Roma.

Da Cremilde, que foi a única pessoa que conheci que esteve na Ilha de Wight, nunca mais soube nada.

Informações complementares :

- Hendrix actuou às 3 da manhã;

- a música de Hendrix não é propriamente um paradigma IFneano. A referência, largamente utilizada, é The Wind Cries Mary;

- Hendrix utilizou a electricidade como ninguém;

- naquela noite, chovia de mansinho.



A propósito de uma noite de vento.



After all the jacks are in their boxes,

and the clowns have all gone to bed,

you can hear happiness staggering on down the street,

footprints dress in red.



And the wind whispers Mary.



A broom is drearily sweeping

up the broken pieces of yesterday's life.

Somewhere a Queen is weeping,

somewhere a King has no wife.



And the wind it cries Mary.



The traffic lights they turn blue tomorrow

And shine their emptiness down on my bed,

The tiny island sags downstream

'Cos the life that they lived is dead.



And the wind screams Mary.



Will the wind ever remember

The names it has blown in the past,

And with this crutch, its old age and its wisdom

It whispers, "No, this will be the last."



And The Wind Cries Mary.







Jimmy Hendrix
Van Morrison de regresso e agora na Blue Note.

Não sei se a etiqueta será uma mais valia para a música de Van. Visitante habitual da IF desde o seu início, Van Morrison volta com este What's wrong with this picture?. A capa evoca o design da própria Blue Note - anos 60. O disco abre com mais uma canção de tristeza e resignada revolta.

Saiu há 3 dias.

Salta-me nas mãos. Embaralha-se-me nos ouvidos. Saltita-me no coração, levemente inquieto. Quer encontrar a saída (a IF) e não disfarça a ansiedade.







O Nuno Pereira deu-me a conhecer, através do Bodyspace, este livro. Era só o que me faltava para completar o trabalho arqueológico sobre PET SOUNDS(1966).

Depois de o ouvir há tanto tempo, vou procurar entrar na verdade desta absoluta obra prima do século XX ( e estou a falar em música popular). Na época, a Capitol, editora dos Beach Boys, não ficou satisfeita com o disco. Queriam mais do mesmo. Quer dizer, mais Verões intermináveis, carros, garotas e ondas ( take a wave and you're sittin' in the top of the world ). Brian Wilson não fez nada disto. Utilizou a música como pintura, como matéria plástica. Ao ouvir as sessões de gravação ( a que se seguiram intermináveis misturas só com Brian, um produtor e um técnico ), sente-se que "algo de raro e indefinível" estava a acontecer.

Espero que este livro me possa contar mais.
"Don't tell me i'm wrong (but you are)".

Imitation Electric Piano




A Maria Eduarda apareceu com uma folha destas que o João Francisco lhe deu.

Em breve, tal como estas belíssimas folhas de plátano, cairá aí a colectânea "Outono" organizada pela Janela Indiscreta com capa (não menos bela) do Mário. Porque a ideia já vem de há muito, vai ser uma Íntima Fracção outonal registada em CD. Quem quer ? Ponha o dedo no ar ...
A Íntima Fracção é uma mulher.

Durante a semana, escolhia-lhe as mais belas peças de vestuário. Desenhava-a. Pintava-a. Dava-lhe recados.

Ao fim da semana, ela vinha. Como se fosse outra. Como se não tivesse sido eu a prepará-la. Falava suavemente. Levemente sedutora. Não chorava, mas fazia-me chorar. Não sei porquê.

Há três semanas que não aparece, mas todos os dias me envia mensagens. Diz, irónica, que ainda não é desta que eu me livro dela.



Is a woman.
De regresso ao futuro, lá vai o som olhando de cima a noite.

Imitation Electric Piano, Trinity Neon.















Ao retomar os Young Marble Giants, abri a porta para as memórias imediatamente anteriores à IF.

Se há pilotos de avião que têm milhares de horas de voo, eu tenho-as também "no ar". Só não sei onde fui, nem por onde passei. Por muito que queira imaginar, não chega.

Em algumas noites dos anos imediatamente anteriores à IF, com a cumplicidade da "assistência técnica", desligava a iluminação normal do estúdio e trabalhava apenas com um candeeiro sobre a mesa. É desse tempo, onde voar pela noite era uma aventura, que me chega a Lene Lovich. "Too tender (to touch)".



Too tender to touch

To fragile to last

These misty eyes are just enough

A little sign

To guide the way

We don't need so very much








"The Portuguese media marketplace is currently in the middle of a major realignment, with Lusomondo Media at the heart of it," said Donal Buggy, the chief financial officer at INM. ( no Guardian )





Young Marble Giants.

O trio de Cardiff, passeia pela cidade. Algures, nos anos que antecederam o nascimento da IF.

O Mário colocou no IF-NO-AR, o som e a letra de "Radio silents" dos Y.M.G. . Está num single que saiu em 1979 e mais tarde num álbum de 84.

Passa ali o som daquela espera por alguma coisa que vai acontecer.

O Hugo Ferreira da RUC (e do Cimbalino) fala no seu blog da ResonanceFM, de Londres (mas também na net).

O sonho explicado por quem o faz :



Imagine a radio station like no other. A radio station that makes public those artworks that have no place in traditional broadcasting. A radio station that is an archive of the new, the undiscovered, the forgotten, the impossible. That is an invisible gallery, a virtual arts centre whose location is at once local, global and timeless. And that is itself a work of art. Imagine a radio station that responds rapidly to new initiatives, has time to draw breath and reflect. A laboratory for experimentation, that by virtue of its uniqueness brings into being a new audience of listeners and creators. All this and more, Resonance104.4fm aims to make London's airwaves available to the widest possible range of practitioners of contemporary art.







Já sei, já sei ... Cá, isto não dá !

Portugal não voltará para trás (sic).
Depois do grande choque ( e pavor ? ) de ouvir um dos MAIORES radialistas portugueses ( Aníbal Cabrita ), vulgarizado por uma lista de músicas (?) a cumprir, retomo a ideia deixada no Adufe . A letra de Caroline, no ( Briam Wilson-Tony Asher ) é a mais simples e eficaz forma de explicar o que nos vai na alma. Basta substituir Caroline por TSF ... Leia a letra completa no Adufe.







Chamo a atenção para um comentário ao post anterior deixado pelo Rui MCB.

Também eu ouvi esta noite o Aníbal Cabrita ser completamente esmagado pelo peso de uma playlist sem classificação.

Acabaram-se estas dúvidas, começaram outras.
Utilizo o blog para dizer que não consigo responder a todas as mensagens. Se receberem um simples "obrigado", não julguem que é sobranceria.

O que me impressiona mais, é descobrir que, muito para além do que alguma vez imaginei, há muita gente com gravações da Íntima Fracção.

Este post foi escrito depois de ter recebido mais uma mensagem de um ouvinte que tem IFs gravadas.

Assim, para além dos sons das memórias que envolvem os corações, a IF está espalhada, intemporal, em "velhos decks de K7" que a continuam em qualquer canto da noite.
As últimas emissões da IF, antes da suspensão, foram marcadas por " From a late night train " dos Blue Nile.

Nesta época de tomar fôlego e balanço, há também uma canção que eu gostaria de partilhar e que desenha bem nos ouvidos o actual estado de espírito.

Room with a view. A versão em inglês de "Chambre avec vue" de Henri Salvador, pelo próprio. Do CD com o mesmo nome, editado pela Blue Note. Reencontrei o disco através da Janela Indiscreta.







Um quarto com vista para ...

Se possível, de onde se possam ver as coisas do alto. Imaginar os percursos do som da IF, entrando por uma janela, poisando na cabeceira de alguém. No meio da noite. A promessa de voltar.



Em antena ( e também na Internet ) o que há de mais próximo da Íntima Fracção chama-se Vidro Azul. Vale a escuta e a visita ao blog.

Entretanto acabei de passar pelo IF-NO-AR. A sugestão deixada por MrDeltaSun já vai aqui : "Quanto custa uma frequência ?".

Calma.
Há longos longos anos que não sentia o que é passar um fim-de-semana sem a Íntima Fracção.

Se estivesse hoje no ar, teria passado uma das canções (suaves) de sempre na IF :

JE NE PEUX PLUS DIRE JE T'AIME

de Jacques Higelin.

O disco é de 1979. Utilizei-o pela primeira vez logo no primeiro ano da IF (1984). Foi o Paulo Eno Marques que mo emprestou. No Natal desse ano, chega a Manela Albuquerque - a prima, da EMI (Valentim, Vadeca ...) e dá-me o disco de presente. Um duplo vinil.

Há muitos anos que já não utilizo o vinil, mas esta música atravessou toda a história da IF. Hoje, tê-la-ia utilizado de novo. Conta o estado actual da minha relação com a TSF, com quem estou casado há 14 anos.



Je ne peux plus dire je t'aime

Ne me demande pas pourquoi

Je ne ressens ni joie ni peine

Quand tes yeux se posent sur moi

Si la solitude te pèse

Quand tu viens à passer par là

Et qu'un ami t'a oubliée

Tu peux toujours compter sur moi



Je ne peux plus dire je t'aime Hm Hm

Sans donner ma langue à couper

Trop de serpents sous les caresses

Trop d'amours à couteaux tirés



Si dure que soit la solitude

Elle te ramène à ton destin

La loi du grand amour est rude

Pour qui s'est trompé de chemin



Je ne peux plus dire je t'aime

Ne me demande pas pourquoi

Toi et moi ne sont plus les mêmes

Pourquoi l'amour vient et s'en va



Si la solitude te pèse

Quand le destin te mène ici

Et qu'un ami t'a oubliée

Tu peux toujours compter sur moi



Et qu'un ami vienne à manquer

Tu peux toujours compter sur moi








É assim mesmo. João Gilberto desfocado.

Adiados, de novo, os concertos no Porto e em Lisboa, previstos para este Outubro.

Desta vez, a empresa produtora não está interessada em novas datas. Provavelmente, não vou conseguir o pleno. Vi e ouvi Jobim, mas vai-me faltar o João.



fotografei você na minha Rolleiflex ... revelou-se a sua enorme ingratidão







Ao Lourenço,

que comprou uma Rolleiflex no momento em que deviam ser compradas : anos 50.

Ao Lourenço,

um cavaleiro andante que deixou milhares de "retratos" noutros tantos milhares de casas.

Ao Lourenço,

a quem garanto que, se ninguém tomar contar da Rollei, esteja descansado que eu trato dela.
Well this could be the last time

This could be the last time

Maybe the last time

I don't know. Oh no. Oh no




The Rolling Stones em Coimbra, na noite da despedida da IF à TSF.







São os Stones ou os Pink Floyd ?







Estes são os Rolling Stones.







Mick Jagger correndo na noite de Coimbra ... em direcção ao "futuro incandescente".



Eu não estava no estádio. Era a última noite da IF na TSF. O concerto acabou a tempo. Os milhares de pessoas nas ruas lembraram-me a ENORME diferença entre um espectáculo de massas e um programa de rádio para ouvir sózinho.
No blog IF NO AR - ideias para a continuidade da Íntima Fracção, a Cristina colocou esta imagem que tem tudo a ver com a IF. Chamou-lhe " em suspensão ".







Entretanto ...

13:05 - terceira estação de rádio que mostra o seu interesse na IF.

Obrigado. Confesso que não esperava isto.
Um dos mais belos posts sobre a IF colocados na blogosfera, está no Mar Salgado e foi escrito pelo Pedro.



"O TRAÇO AZUL JÁ ENTROU NO FUTURO: Estou certo de que, hoje, fomos muitos aqui. Os mapas complicaram-se - agora mudam com tanta rapidez - , mas a IF já está no seu caminho, leaving for home. Tonight."



Uma brilhante colagem partindo de uma frase-chave do programa ( há um traço azul no futuro incandescente ), com a citação do tema Maps of the world, com John Cale e Bob Newirth, uma memória dos anos 90 da IF.

Só não sei ainda se a viagem vai ser longa ou breve.



As primeiras mensagens que recebi durante a última IF na TSF, vieram do companheiro da Rádio, Francisco Mateus, que dedicou 15 minutos da emissão da própria TSF (antes das notícias da 1 hora) ao programa e às influências que dele recebeu há largos anos. Coisa que não poderá voltar a fazer tão cedo, porque a emissão da TSF vai começar a funcionar com playlist. Logo depois, mensagens do Brasil e da Venezuela !

Antes que me perguntem de novo, já que houve 4 mails a perguntar o mesmo (entre outras coisas), aqui fica uma confirmação : não foi por acaso que passei o épico (ou será angustiado ? ou uma angustia épica ?) Sweden, pelos Divine Comedy (Neil Hannon). I would like to live in Sweden ...When my work is done ... Where the snow lies crisp and even’neath the midnight sun ... Safe and clean and green and modern ... Bright and breezy free and easy ... I’ll grow wings and fly to sweden ... When my time is come ... Then at last my eyes shall see them ... Heroes every one ...Ingmar Bergman ... Henrik Ibsen ... Karin Larrson ... Nina Persson ".

É o que me apetece.

Também não foi por acaso que passei a gravação, quase integral, do final do célebre concerto de Elvis Presley, em 1956 - 15 de Dezembro, Shreveport, LA. Hirsch Youth Center, Louisiana Fairgrounds , com a frase do apresentador, dita para acalmar uma assistência nervosa que teimava em não deixar que o espectáculo continuasse : "Elvis has left the building". Não, não. Não vale a pena fazer comparações com o Elvis. Apenas me agrada como termina o registo : " se voltarem para os vossos lugares e se sentarem, o espectáculo continua dentro de 5 minutos."







Esta noite, entre a uma e as três, passa a última IF na frequência da TSF.

Entretanto, nas primeiras 24 horas depois de ter tornado pública a suspensão da IF, DUAS estações de rádio mostraram-se interessadas em ter a IF nas suas frequências. Também uma rádio-online ofereceu a casa para a IF passar os dias de retiro que fossem necessários.





A parte de trás do palco do concerto dos Stones fica virada para aqui, mas é possível ver o que se passa através desta webcam.
ÍNTIMA FRACÇÃO SUSPENSA.



No próximo sábado cumpre-se a última "Íntima Fracção" na TSF. Já não é a primeira vez que o programa é suspenso. Quando da passagem da Antena 1 para a TSF, há 14 anos ( ! ), a IF parou durante 4 meses. Durante os 20 anos que completa a 8 de Abril de 2004, foi o único período em que a sua transmissão esteve suspensa.

A IF é um programa de rádio de autor, por isso, não faz sentido dizer que acabou. É absurdo dizer a um pintor que deixe de pintar porque uma galeria não lhe expõe mais os quadros. Mesmo que a esta galeria se tenham dedicado 14 anos de vida.

Assim, a IF continua. Procura casa. Uma casa da Rádio onde se abra a janela e se deixe o som, o rumor do coração e da música, sair pelo meio da noite ... flutuando ... através do espaço infinito.

O Luís, de A natureza do Mal, disse-me tudo : "Nunca poderá acabar, porque é outro o lugar onde aquela música toca, foi sempre outro, inacessível aos gabinetes dos pequenos e grandes mandantes, o lugar, onde, suavemente está".

Agradeço todo o apoio dos ouvintes que, por diversas formas, me lançaram dúvidas e angústias, mas também porções de um enorme e (acreditem) inesperado afecto. Quase não respondi a mails, fui evasivo, eu sei. Às centenas de ouvintes que enviaram mensagens a que não respondi, garanto agora que a IF não acabou. Aos bloggers que não conheço, mas que aqui e ali juntaram esforços e criaram um blog colectivo para receber "Ideias para a continuidade da IF", devo dizer que o vosso trabalho e dedicação, para lá de agora se revelar de grande utilidade, me fez acreditar de novo que vale a pena trabalhar para a fruição de outros. Aos autores de Blogs que não nomeio, já que deve haver vários que não li, e que escreveram posts e linkaram sobre a IF, tenho de dizer que, com eles, a mágoa se desfez um pouco em cada noite.

A IF não acabou.

Está a cantar baixinho, parada, num caminho escuro à espera da aurora.

A IF não acabou.

A maioria das aves que migram orientam-se pelo sol, mas há espécies que preferem utilizar as estrelas como bússula.

A IF não acabou.

Enquanto procura de novo "a casa", embrulhar-se-á na imensa rede e ficará à espera do download de quem a amar.

A IF não acabou.

Observa bem e sente ! Sente mais do que vês - a escura noite, tornando-se, lentamente, em clara madrugada.

A IF não acabou.

"Há um traço azul no futuro incandescente".



O psicótico vive no temor da queda ( pelo que as várias psicoses não seriam senão defesas ). Mas o " receio clínico da queda é o receio de uma queda que já se experimentou ( primitive agony ) [ ... ] e há momentos em que um paciente sente a necessidade de lhe dizerem que a queda, que ele tanto teme e lhe mina a vida, já se verificou". ( Winnicott )




When you're standing on the crossroads

That you cannot comprehend

Just remember that death is not the end

And all your dreams have vanished

And you don't know what's up the bend

Just remember that death is not the end

Not the end, not the end

Just remember that death is not the end






A RÁDIO foi uma Arte.

A RÁDIO é uma Arte ?

A RÁDIO poderá ser uma ARTE ?









Em 1984, um pouco antes de começar a Íntima Fracção, passei a Serra da Estrela de carro e sózinho. O céu, que estava azul, passou a cinzento chumbo, o tal que dá neve. No topo da serra, com a noite a cair, a única referência que tinha para saber onde era a estrada estava numas barras pretas e amarelas, que é para isso que lá devem estar. Na descida para Seia, a neve desapareceu.

É assim que me sinto : de novo no alto da Serra. As barras que me amparam, tomam agora outros formatos. Não sei quem colocou lá as outras. Não conheço quem colocou agora estas, mas posso dizer obrigado. Não conheço, mas descobri-lhes as assinaturas. Aqui e ali.
INTIMA FRACÇÃO

20 / 21 de Setembro de 2003



# Smog : Back in school

# Múm : On the old mountain radio

# Prefab Sprout : Andromeda Heights

# Dick Hyman : Mack the knife

# Future 3 : Alison

# Dionne Warwick : Trains , boats and planes

# Fred Frith : Trains , boats and planes

# Blue Nile : From a late night train

# For Stars : There was a river



# Johnny Cash : We'll meet again

# Lambchop : Autumn's vicar

# Alpha : Blue Autumn

# Tom Verlaine : Depot ( 1958 )

# Suicide : Surrender

# Tindersticks : Running wild

# Manual : Blue skied an' clear

# Parker and Lily : My apartment complex

# Parker and Lily : Bridge and tunnel

# John Cale : The soul of Carmen Miranda

# Elvis Costello : Someone took the words away



Créditos sobre # Vera Lynn : We'll meet again

Música suplementar # Ulrich Schauss : Crazy for you



sons : telefones, máquinas em parque de diversões, vento, riacho, mar, avião, torre de controlo, elevador, comboio, sirene de barco, Corvette 62', som original do apresentador do espectáculo de Elvis Presley - 1957 : Elvis has left the building.



Textos :



" Na Íntima Fracção da noite ... não é o silêncio ... é o barulho do coração. Um ruído, um rumor que se levanta. "

" Pouco para dizer e muito para escutar. Tudo para sentir e sempre a espera pela intimidade de uma esperança ...

Recomeçando a cada instante. "

" Suaves e brilhantes reflexos, como uma pequena pérola rolando pela palma da mão estendida à janela da

escuridão desta noite. O clarão, o brilho mais intenso, já o sabemos, vem sempre de dentro. " (F.A.)
ENCONTRO DE WEBLOGS em BRAGA - UNIVERSIDADE DO MINHO.

Uma breve reflexão sobre o blog da Íntima Fracção.




Dreyfuss ( Curt ) entra no coração da rádio. Edifício vazio. Wolfman Jack, só, no estúdio.

São quase 5 da manhã.



You're Sixteen (You're Beautiful and You're Mine) - Johnny Burnette
A solidão dos viajantes da noite



"Each nightscape also shows a train, often reduced to a mere blur, which evokes the loneliness of late-night travelers."



Peter Oxley







# Blue Nile : From a late night train





From a late night train

Reflected in the water

When all the rainy pavement

Lead to you

It's over now

I know it's over

But I can't let go



The cigarettes, the magazines

All stacked up in the rain

There doesn't seem to be a funny side

It's over now

I know it's over

But I can't let go



From a late night train

The little towns go rolling by

And people in the station

Going home

It's over now

I know it's over



But I love you so



in. Hats, 1989
IF.

No meio da noite

Não é o silêncio ...

é o barulho do coração

( um ruído que não interessa ? )
Não consigo discutir algumas mudanças. A do " pi...pi...pi " horário da RDP é uma delas. Durante anos, de manhã, à tarde e à noite, abri-lhe a porta. Ou era a janela ?

coisas que não mudam e nos dão segurança.