1 de Dezembro de 1962
Um Mini ( um Seven ... ) cruza vezes sem conta o frio da tarde nas ruas da cidade.
Chamam-se "canadianas" aos casacos com capuz e alamares de madeira.
Paddy Hopkirk ainda irá ganhar o Rali de Monte Carlo, com um Mini Cooper.
Todos os que amávamos ainda cá estavam.
Nevará depois do Natal.

À noite passa na TV outro episódio de "Ghost Squad" (como se terá chamado na RTP ?), com o agente secreto da Scotland Yard, Nick Craig.

Ghost Squad.MP3

Novo disco de Fausto (Bordalo Dias).
Em que playlist consegue entrar ? Com que (em que) frequência ?
E na televisão ?
Será que é ele que não quer "correr as capelinhas" da promoção ? Não me admirava e até o compreendia. Há uns anos (muitos), almocei com o Fausto e os "promotors" da discográfica que editara um dos seus discos . Fausto é um homem diferente. Foi com constrangimento que o vi ter que engolir as graçolas dos promotores da ocasião.
Agora, dizem, fez um álbum desencantado. Ainda não o consegui ouvir, mas se for, estou com(o) ele.
Fausto é um excelente músico. Um magnífico poeta. Um homem culto.
Não chega.
Falta qualquer coisa que o eleve ao nível de uma Mónica (S?)Cintra...
Há um lugar para nós
Algures, um lugar para nós
Paz e sossego e ar livre
Esperam por nós
Somewhere

Tenho passado os dias e as noites apreciando as vistas sobre Riddarfjärden e o centro da cidade. Lembra-me um tempo morno, de prenúncios, de vagas premonições.
Ah se eu pudesse oferecer um presente no Natal ...
Dub a dub a dum dum
Dub a dub a dum
Dub a dum dum dub a dub
Dub a dub a dum
Dub a dub a dum dum
Dub a dub a dum
Dub a dum dum dub a dub
Dub a dub a dum
Wish I was at home for Christmas
Jona Lewie - Stop the cavalry_s.MP3
Porque não o conseguem imaginar, não o querem !
Porque não o conseguem imaginar como possível, farão tudo para o tornar impossível.
Por tudo isto, odiar-te-ão por o tornares possível.
Leon KRIER

A revolta do arquitecto, é a revolta de todos os criadores.
ESTOCOLMO.
"... safe, clean, and modern". (Neil Hannon - Divine Comedy)
Tem que se sonhar com alguma coisa.
Nem que seja para criar a vontade do regresso.
Virginia Astley - Broken_exct.MP3
Afinal, ainda não foi desta que cheguei a BROKEN, da Virginia Astley.
Fica aqui um extracto daquela suave pérola que rola pelos ouvidos até aos corações.
BROKEN, I'M BROKEN.
Há umas 3 semanas andava eu à procura da letra de "BROKEN", da Virginia Astley.
Deixa-me agora o C.Paris o caminho para ela.
BROKEN
Trinta raios tem o cubo da roda, mas o vazio entre eles perfaz a essência da roda.
Da argila nascem os vasos, mas o vazio neles perfaz a essência do vaso.
As paredes com janelas e portas formam a casa, mas o vazio nelas perfaz a essência da casa.
Fundamentalmente :
A matéria contém a funcionalidade;
O que não é matéria contém a essência.
Lao Tse ( filósofo chinês - sec. V a . c . )
Este texto esteve afixado durante muito tempo num gabinete que partilhei, entre outros, com o Arq. António Durães. Foi ele que lá o colocou. E com aquela pequena folha que o continha, aprendi mais do que em milhares de páginas impressas.
A IF tem aqui a sua natureza explicada.
" O mais importante é o que não pode ser dito ainda; o essencial, o secreto, é o que se não nomeia. Dizer é a periferia; o centro é o silêncio. " J.Wiborg (86)
Há muito que somos o centro, mas não podemos abandonar a periferia. Tu permaneces no centro, mas há muito que geograficamente não o suportas. Eu passo entre os dois, num território que não permite o vagueio. E, no entanto, quem dera voltarmos a ser o rouxinol anónimo (ou talvez, finalmente, sê-lo !) (03) ... a própria noite que em silêncio brilha: a clara noite, como um sonho futuro e verdadeiro. (88)

Se eu estivesse hoje em Estocolmo, logo não faltava ao concerto de Georgie Fame, no Teatro Scala.
A música de Georgie Fame está algures entre o jazz e o rythm'blues.
A maior parte do público conhece-o pelas composições mais pop, como a Balada de Bonnie and Clyde ou Yeh Yeh, que teve uma versão largamente consumida nos anos 80, através de Matt Bianco.
Fame está muito para além disto. Tocou com Count Basie, mas também com Eric Burdon, Alan Price ou, mais recentemente, com Van Morrison.
Pois é. Se eu estivesse em Estocolmo ... Como não estou, talvez um qualquer administrador de Casino lhe dê a nostalgia e o contrate para vir cantar "uns velhos êxitos" no jantar anual dos "empresários labroscas" !
É ! É verdade. Estou um bocado ácido.
Parece que tudo correu pelo melhor.
Não sei ainda o que motivou a libertação do Carlos Raleiras, mas ainda bem que foi assim.

Quanto à Maria João Ruela, não encontro nada melhor para dizer do que o início de uma canção de Bob Dylan, já com vinte anos ...
Well, the pressure's down, the boss ain't here,
He gone North, he ain't around,
They say that vanity got the best of him
But he sure left here after sundown.
By the way, that's a cute hat,
And that smile's so hard to resist
But what's a sweetheart like you doin' in a dump like this?
Para se ouvir um pedaço, entra-se pela capa do álbum onde foi publicada. Infidels (1983).

À hora deste post, o Carlos Raleiras continua raptado no Iraque. Embora tenhamos trabalhado para a mesma rádio, pelo menos 12 anos, devo-me ter cruzado com o Raleiras meia dúzia de vezes. Talvez em alguma festa de Natal (quando as havia), no aniversário da TSF, na redacção (nas Amoreiras ? na Av. de Ceuta ?). Será que falámos alguma vez ao telefone por um qualquer motivo de trabalho ? Não me lembro. Seja como for, o Carlos é um colega e a situação é terrível.
No grupo de profissionais que foi atacado, está também o Pedro Baptista, para mim o Pedro Cristiano, repórter de imagem em serviço para a TVI. Não só trabalhámos juntos noutras paragens, como o Pedro foi também meu aluno. Há oito anos, com uma simples câmara de vídeo-8, ele apresentou-me um trabalho feito num comício da campanha eleitoral que levou Jorge Sampaio à presidência pela primeira vez. O Pedro era um adolescente, mas conseguiu com um enorme talento, trazer um "bruto" que estava capaz de ir para o ar sem mais. Isto é difícil. É preciso ter um sentido apurado da narrativa áudio-visual. Entusiasmei-o muito para seguir a carreira de operador de câmara. Ele avançou, recuou, regressou, ainda estudou Gestão, mas finalmente decidiu-se e entregou-se ao seu talento e capacidade.
Vejo-o agora ali, como dizia o outro, "algures no sul do Iraque", com ar tenso (pudera !) e tão longe daquela primeira reportagem que o ajudou a encontrar uma profissão. Quase me sinto responsável !
O que mais me impressionou foram os comentários que já ouvi. "Os jornalistas foram imprevidentes !". Paulo Camacho disse na SIC-Notícias : " se um só daqueles jornalistas que ali estavam resolvesse avançar, ai dos outros que não o fizessem ! Seriam crucificados pelas suas redacções e chefias."
Esta é a verdade. Não me puxem pela língua.
Espero que tudo acabe bem !

Ainda não consegui ouvir este duplo duas vezes. Mas tem Alla Polacca e vários temas de Stowaways. Nestes passam uma série de boas memórias (influências ?) para quem tem boa memória. Eu ouvi lá desde Stranglers (Golden Brown) até António Carlos Jobim. Será assim ou será que a informação já é muita e também já não consigo processar convenientemente ?
Ah ! Mas "A" dos (do ? da ?) Alla Polacca, de "Not the white P ?" é das melhores coisas feitas por portugueses que ouvi nos últimos tempos. Ainda não consegui libertar-me da sua escuta quase compulsiva.
Às duas e meia da madrugada de uma noite de nevoeiro, começo a ouvir o Canon de Pachelbel vindo da rua. Não é uma gravação. São cerca de 20 rapazes em traje estudantil. Vestidos de negro no meio da noite. Violas, bandolins, flautas e violinos. Cantam em sussurro. É uma serenata para uma menina que vive em frente. "Menina estás à janela". E ela está. Saberá o que lhe está a acontecer? Ao fim de 4 músicas, calam-se e dizem-lhe adeus. A menina, ou alguém por ela, abre e apaga a luz três vezes. Diz : obrigada.
Afinal ainda será diferente o "amor em Portugal" ? Naqueles momentos, passou pela rua uma qualquer impossibilidade para além da tristeza em que vivemos.
Foi tudo tão elegante e contido, que fiquei a acreditar que Coimbra ainda tem coração. Porque não o deixam pulsar ?
Sei porque gosto de ouvir vezes sem fim a versão em piano de "Raining in my heart", por Robert Wyatt, no novo CD dele, "Cuckooland". Nostalgia. O tempo "em que tudo era ainda possível". A sala do piano, ao fundo do corredor, em casa da avó Emília. Os finais de tarde perfumados pelo jardim, com o ar morno suavemente cheio pelo som do piano da madame Borges. A belga corria a persiana da janela da sala, mas deixava os vidros abertos. O bairro, luminoso, devia agradecer, mas os clássicos do fim da tarde pareciam clandestinos. Sempre me apeteceu encostar ao portão da moradia e bater palmas quando ela fechava o piano. Dar-lhe até um amor-perfeito, colhido no jardim da minha casa. Nunca o fiz. Nunca ninguém o fez, embora dissessem "Ah! Que maravilha ... a madame Borges ...". Agora é tarde. Resta-me ouvir o piano tocado pelo Wyatt. Agora, que ele está ali, tenho a certeza, no mesmo estado de alma do que eu.
"Raining in my heart".
"Eles transformaram os telejornais em ficção e o resto são 'reality shows'. Há cada vez menos espaço para coisas sérias, boas e rigorosas" - João Botelho, na abertura do Cinanima.
Apetecia-me dizer uma série de coisas sobre o poder que "eles" têm de construir um mundo hipócrita. Estou demasiado ocupado com a sobrevivência. Não tenho tempo para polémicas que não me dão o bem estar que "eles" sabem retirar para proveito próprio. E, porém, garantem-me, são conservadores e católicos.
A Íntima Fracção - Programa de rádio - começa a parecer distante.
A liberdade conquistada não pode ser esquecida.
O regresso ao éter depende, exclusivamente, do espaço disponível para esticar a mão, no meio da noite, onde rola uma pérola que já não consigo esconder.
"Apenas me interessa o inabdicável."
E assim vai ser.
Está aqui a parte IIc (final) do Köll Concert, de Keith Jarrett, do qual falei a propósito de "A" dos Alla Polacca.
keith jarrett - K lnConcert4_2.MP3
Foi gravado a 25 de Janeiro de 1975. Um improviso absoluto. Há outros concertos a solo que Jarrett gravou e que fazem parte da mesma linha.
Keith Jarrett sofre de "síndrome de fadiga crónica", mas os tratamentos têm resultado e, por isso, está de novo a dar concertos, tendo uma tourné pelo Japão programada para a Primavera de 2004.
Sexta, 14, toca em Seattle (EUA) e já deixou o seu aspecto afro (ele não é descendente de africanos). A cabeleira deu lugar a um corte bem mais curto como se pode ver.
Radio Etiópia ( Patti Smith ). Radio Ga-Ga ( Queen ).
Quantas mais ?
As rádios portuguesas estão vazias. A maioria (refiro-me às rádios de expressão nacional) são RÁDIOS SEM ALMA. A TSF, que ainda marcava alguma diferença, não quis (ou não soube ...) resistir à uniformização da música. A estética radiofónica está moribunda. Noutra estação, passei uma noite a ouvir as horas, a data, e a identificação da rádio. A música era um bocadinho melhor, mas de resto faltava tudo. A linguagem radiofónica deve ser como a cinematográfica. Não há elemento algum que surja sózinho. Há sempre alguma coisa imediatamente antes e outra depois. Ignorar esse "racord" é matar a rádio. Neste momento, está quase ...
Entretenham-se com a Rádio Bolívia. É só mais uma !

Ando a ouvir "A", dos Alla Polacca.
Alla Polacca - A_short.MP3
É verdade que cada vez me lembro mais do Köln Concert, de Keith Jarrett, mas há sempre uma atmosfera nova que me passa pelo coração de cada vez que oiço. Agora foi a do quarto do piano, em casa do Alvim, na Rua de Campolide, há muitos muitos anos. Nas teclas estava a infância a fugir, tão depressa quanto nós queriamos fugir daqui.

Os Alla Polacca vão-me enviar os discos deles. Espero ansiosamente para ouvir "A".
Enviaram-me um mail muito simpático. Fiquei com a ideia que não conhecem a Íntima Fracção. Também quem é que manda o programa ser tão antigo, mas não se sentir velho ?
A verdade é que também eu não os conhecia e até venceram o Termómetro Unplugged. Imperdoável.
No blog IF-NO-AR, os amigos da Íntima Fracção continuam a postar coisas magníficas.
A Cristina Fernandes colocou lá este texto.
A aurora estende um fumo de bruma sobre os rios e os lagos. É um véu que se entrepõe entre o Sol que se levanta e o seu reflexo, que se espalha na região do ar que o envolve. É o seu próprio calor que torna impossível vê-lo no instante do seu nascimento. Não conhecemos nunca o que começa no seu início. Qualquer causa em nós é recapitulada e fictícia.
Não conhecemos nunca o que acaba no instante do seu verdeiro fim. Todo o adeus é uma palavra que queremos acreditar que conclui. Ora ela não começa nada e nada acaba.
Pascal Quignard
E o Mário, que não conheço pessoalmente (o mesmo com a Cristina), deixou lá esta foto.

Azul aprisionado ?
É com o Mário e a Cristina que se está a projectar uma série de fotos que partem dos ambientes da IF. Dos ambientes, músicas e memórias da IF.
Entretanto está aí a chegar a Colectânea de Outono da Janela Indiscreta, partindo de sugestões dos visitantes e editada por mim. Como inclui voz e, por causa de uma constipação, a minha está boa para "escrever à máquina...", tenho que esperar mais um bocadinho.
Para além dos que já disseram que queriam o CD, quem mais quer ?
A Antena 2 merece um zapping mais frequente. Parece diferente - para melhor.
Às vezes, ainda vale a pena fazer qualquer coisa aqui.
Ontem, ouvi o "Santos da Casa", na RUC (porque será que oiço cada vez mais aquela rádio ?).
Valeu a escuta. Por tudo.
E também porque descobri os Alla Polacca num instrumental chamado "A". Ouvi aquilo no carro, num fim de tarde (já noite) muito chuvoso e com trânsito.
São coisas destas que me fazem ainda não ter emigrado para a Escandinávia, embora saiba que não vêm nas playlist.
"Quis saber quem sou ... o que faço aqui ...". É assim que começa "E depois do adeus", a canção que foi a primeira senha para o 25 de Abril. Pois quase 30 (trinta !!!) anos depois a frase continua com todo o sentido. " ... O QUE FAÇO AQUI" ?
1. Continua-se a ficar admirado e muito contente porque umas eleições correm bem e com muito civismo.
2. Por uma breve distracção, caí nos directos das TVs e pensei que tinha havido eleições antecipadas e os empresários do futebol tinham tomado definitivamente o poder !!!
" ... O QUE FAÇO AQUI" ?
Noite de Halloween.
Nesta época, em Coimbra, há a tradição das crianças irem bater às portas levando uma caixa de sapatos com olhos e boca recortados e com uma vela lá dentro. Também se usaram abóboras. Cantam os "bolinhos bolinhós ...".
Três obstáculos à continuidade da tradição:
- já ninguém tem abóboras numa casa da cidade;
- os sapatos não vêm em caixas;
- há cada vez menos crianças.
"As coisas são como são".
E ainda se acrescenta: " e ponto final !".
Que melhor maneira haverá para explicar este meu súbito regresso a Virginia Astley ? Claro que saiu no final de Setembro uma nova edição do histórico álbum "From gardens where we feel secure". Talvez, sem dar por isso, me tenha chamado de novo a Virginia e os seus sentidos. Mas "as coisas são como são" e aqui estou, como adolescente, a ouvir vezes sem conta "Broken" do álbum "Had i the heavens" (1996).
E porque "as coisas são como são", é que eu julgo que o primeiro histórico álbum de Virginia Astley (Julho de 1983) devia ter sido reeditado com uma pequena modificação no título : em vez dos "jardins onde nos sentimos seguros", devia estar "jardins onde nos sentíamos seguros".
"Broken ... i'm broken". (ninguém me encontra a letra completa ?)
Como se todas as esperanças, há muito esquecidas, não se tendo concretizado, fossem, agora, de novo possíveis.
As esperanças possíveis são muito mais inquietantes do que as esquecidas.
A música avança. Pára. Recomeça. Aventura-se, mas ainda não se decide.
A IF.
Walking and falling at the same time.
Lá por que não está NO-AR, nem por um só momento adormeceu. Reaprende a andar, mas insiste em não utilizar bússolas para a navegação nocturna.

Quem é que no Portugal-2003 tem coragem para fazer um filme como "O meu tio", de Jacques Tati ?
Li num blog (não me lembro qual) que o Roland Barthes tinha escrito nos "Fragmentos de um discurso amoroso" o seguinte : O amor de alguém é um presente tão inesperado e tão pouco merecido que devemos espantar-nos que não no-lo retirem mais cedo.
Ora quem escreveu isto foi a Marguerite Yourcenar no "O tempo - esse grande escultor". São dois livros que quase sei de cor. A IF cresceu à sombra deles.
Já agora que aqui estão, oiçam mais um pouco :
Não se possui ninguém (mesmo os que pecam não o conseguem) e, sendo a arte a única forma de posse verdadeira, o que importa é recriar um ser e não prendê-lo.
...
Só se possuem eternamente os amigos de quem nos separamos.
Se a IF estivesse, agora, no ar estava em passar alguma coisa deste álbum.
"A year to the day". É um grupo de escoceses. The Zephyrs. Há um bocado de slide-guitars a mais, mas também há muitos outros momentos que valem a pena. Não sei ainda por quanto tempo.

Lá pelo meio da década de 80, o João Costa ( um dos mais elegantes e cultos radialistas portugueses, "escondido" na RDP ), que na altura ainda não trabalhava na rádio ( estudava Direito ? trabalhava numa discoteca ? construía candeeiros ? ), emprestou-me um disco imaculado. Duplamente. Era um duplo vinil, com um dos discos só preenchido com temas instrumentais. "Gone to Earth", do David Sylvian.
É ali que está mais uma das referências da IF. Sempre pensei fazer um vídeo sobre a Serra da Estrela com aquela banda sonora. Depois, pensei fazer um trajecto entre a montanha e o mar. Depois ... tanta coisa e ... até hoje !
Vem este post a propósito, se ainda não perceberam, da imagem sobre a noite que a Chris colocou no IF-NO-AR, mas também porque, sempre que posso, aproveito para falar do João Costa. Para ele, a Rádio passou a ser uma profissão e deixou de ser uma paixão ( foi, há quase 10 anos, uma das vítimas da primeira crise "emocional" da TSF ). Nem sei se o João Costa alguma vez esteve apaixonado pela rádio. Não interessa. Uma vez disse-me que precisava de uma profissão para preencher as fichas de registo nos hotéis. Nessas fichas não fica a sabedoria, o bom gosto, a elegância e a criatividade do João. E assim perdemos o que devia estar audível a todos.
Vento, chuva, frio e neve.
manto branco

Fui buscar "A um Deus desconhecido" da Sétima Legião, onde está o indicativo da IF (Mar de Outubro). Procurei o LP em vinil que utilizei nos anos da RDP-Antena 1.
Ouvi o Manto Branco.
Um encanto que acabou
Manto branco sobre a luz
Outro vento que mudou
Manto branco e uma cruz
E dizer
Eu posso sorrir
E dizer
Eu posso fugir
E mentir
Eu posso sentir
ao viver depois de ti
...
Uma herança de mudar
Manto branco pelo chão
Já não te posso tocar
E dizer
Eu posso sorrir
E dizer
Eu posso fugir
E mentir
Eu posso sentir
ao viver depois de ti

É este o disco. O original, com rótulo da RDP (feito pelo Fernando Trigueiros) e tudo. Guardei-o para a memória. Troquei-o por outro exemplar que substituiu este. A imagem é pura memorabilia para seguidores da IF.
A noite de sábado para domingo é a noite original da IF. Mas foi de domingo para segunda que ela percorreu a maior parte do seu percurso até aqui.
Está aqui a gravação integral ( com alguma pub. americana pelo meio, mas enfim ...) da prestação de Jimmy Hendrix no Festival da Ilha de Wight. Isto passou-se em Agosto de 1970. Hendrix morreu dias depois. O que aqui está é um registo daquele momento.
33 anos depois, está quase tudo na mesma. O que é mau. O ambiente dos concertos de massas tem aqui o seu Neolítico. O Paleolítico foi em Woodstock.
Do mal o menos. Já não bebo BB, um refrigerante cheio de corantes e gaz.
Infelizmente já não vou para Campo de Ourique à procura dos discos que não encontrava na Avenida de Roma.
Da Cremilde, que foi a única pessoa que conheci que esteve na Ilha de Wight, nunca mais soube nada.
Informações complementares :
- Hendrix actuou às 3 da manhã;
- a música de Hendrix não é propriamente um paradigma IFneano. A referência, largamente utilizada, é The Wind Cries Mary;
- Hendrix utilizou a electricidade como ninguém;
- naquela noite, chovia de mansinho.
A propósito de uma noite de vento.
After all the jacks are in their boxes,
and the clowns have all gone to bed,
you can hear happiness staggering on down the street,
footprints dress in red.
And the wind whispers Mary.
A broom is drearily sweeping
up the broken pieces of yesterday's life.
Somewhere a Queen is weeping,
somewhere a King has no wife.
And the wind it cries Mary.
The traffic lights they turn blue tomorrow
And shine their emptiness down on my bed,
The tiny island sags downstream
'Cos the life that they lived is dead.
And the wind screams Mary.
Will the wind ever remember
The names it has blown in the past,
And with this crutch, its old age and its wisdom
It whispers, "No, this will be the last."
And The Wind Cries Mary.

Jimmy Hendrix
Van Morrison de regresso e agora na Blue Note.
Não sei se a etiqueta será uma mais valia para a música de Van. Visitante habitual da IF desde o seu início, Van Morrison volta com este What's wrong with this picture?. A capa evoca o design da própria Blue Note - anos 60. O disco abre com mais uma canção de tristeza e resignada revolta.
Saiu há 3 dias.
Salta-me nas mãos. Embaralha-se-me nos ouvidos. Saltita-me no coração, levemente inquieto. Quer encontrar a saída (a IF) e não disfarça a ansiedade.

O Nuno Pereira deu-me a conhecer, através do Bodyspace, este livro. Era só o que me faltava para completar o trabalho arqueológico sobre PET SOUNDS(1966).
Depois de o ouvir há tanto tempo, vou procurar entrar na verdade desta absoluta obra prima do século XX ( e estou a falar em música popular). Na época, a Capitol, editora dos Beach Boys, não ficou satisfeita com o disco. Queriam mais do mesmo. Quer dizer, mais Verões intermináveis, carros, garotas e ondas ( take a wave and you're sittin' in the top of the world ). Brian Wilson não fez nada disto. Utilizou a música como pintura, como matéria plástica. Ao ouvir as sessões de gravação ( a que se seguiram intermináveis misturas só com Brian, um produtor e um técnico ), sente-se que "algo de raro e indefinível" estava a acontecer.
Espero que este livro me possa contar mais.

A Maria Eduarda apareceu com uma folha destas que o João Francisco lhe deu.
Em breve, tal como estas belíssimas folhas de plátano, cairá aí a colectânea "Outono" organizada pela Janela Indiscreta com capa (não menos bela) do Mário. Porque a ideia já vem de há muito, vai ser uma Íntima Fracção outonal registada em CD. Quem quer ? Ponha o dedo no ar ...
A Íntima Fracção é uma mulher.
Durante a semana, escolhia-lhe as mais belas peças de vestuário. Desenhava-a. Pintava-a. Dava-lhe recados.
Ao fim da semana, ela vinha. Como se fosse outra. Como se não tivesse sido eu a prepará-la. Falava suavemente. Levemente sedutora. Não chorava, mas fazia-me chorar. Não sei porquê.
Há três semanas que não aparece, mas todos os dias me envia mensagens. Diz, irónica, que ainda não é desta que eu me livro dela.
Is a woman.
De regresso ao futuro, lá vai o som olhando de cima a noite.
Imitation Electric Piano, Trinity Neon.


Ao retomar os Young Marble Giants, abri a porta para as memórias imediatamente anteriores à IF.
Se há pilotos de avião que têm milhares de horas de voo, eu tenho-as também "no ar". Só não sei onde fui, nem por onde passei. Por muito que queira imaginar, não chega.
Em algumas noites dos anos imediatamente anteriores à IF, com a cumplicidade da "assistência técnica", desligava a iluminação normal do estúdio e trabalhava apenas com um candeeiro sobre a mesa. É desse tempo, onde voar pela noite era uma aventura, que me chega a Lene Lovich. "Too tender (to touch)".
Too tender to touch
To fragile to last
These misty eyes are just enough
A little sign
To guide the way
We don't need so very much
"The Portuguese media marketplace is currently in the middle of a major realignment, with Lusomondo Media at the heart of it," said Donal Buggy, the chief financial officer at INM. ( no Guardian )

Young Marble Giants.
O trio de Cardiff, passeia pela cidade. Algures, nos anos que antecederam o nascimento da IF.
O Mário colocou no IF-NO-AR, o som e a letra de "Radio silents" dos Y.M.G. . Está num single que saiu em 1979 e mais tarde num álbum de 84.
Passa ali o som daquela espera por alguma coisa que vai acontecer.
O Hugo Ferreira da RUC (e do Cimbalino) fala no seu blog da ResonanceFM, de Londres (mas também na net).
O sonho explicado por quem o faz :
Imagine a radio station like no other. A radio station that makes public those artworks that have no place in traditional broadcasting. A radio station that is an archive of the new, the undiscovered, the forgotten, the impossible. That is an invisible gallery, a virtual arts centre whose location is at once local, global and timeless. And that is itself a work of art. Imagine a radio station that responds rapidly to new initiatives, has time to draw breath and reflect. A laboratory for experimentation, that by virtue of its uniqueness brings into being a new audience of listeners and creators. All this and more, Resonance104.4fm aims to make London's airwaves available to the widest possible range of practitioners of contemporary art.

Já sei, já sei ... Cá, isto não dá !
Portugal não voltará para trás (sic).
Depois do grande choque ( e pavor ? ) de ouvir um dos MAIORES radialistas portugueses ( Aníbal Cabrita ), vulgarizado por uma lista de músicas (?) a cumprir, retomo a ideia deixada no Adufe . A letra de Caroline, no ( Briam Wilson-Tony Asher ) é a mais simples e eficaz forma de explicar o que nos vai na alma. Basta substituir Caroline por TSF ... Leia a letra completa no Adufe.

Chamo a atenção para um comentário ao post anterior deixado pelo Rui MCB.
Também eu ouvi esta noite o Aníbal Cabrita ser completamente esmagado pelo peso de uma playlist sem classificação.
Acabaram-se estas dúvidas, começaram outras.
Utilizo o blog para dizer que não consigo responder a todas as mensagens. Se receberem um simples "obrigado", não julguem que é sobranceria.
O que me impressiona mais, é descobrir que, muito para além do que alguma vez imaginei, há muita gente com gravações da Íntima Fracção.
Este post foi escrito depois de ter recebido mais uma mensagem de um ouvinte que tem IFs gravadas.
Assim, para além dos sons das memórias que envolvem os corações, a IF está espalhada, intemporal, em "velhos decks de K7" que a continuam em qualquer canto da noite.
As últimas emissões da IF, antes da suspensão, foram marcadas por " From a late night train " dos Blue Nile.
Nesta época de tomar fôlego e balanço, há também uma canção que eu gostaria de partilhar e que desenha bem nos ouvidos o actual estado de espírito.
Room with a view. A versão em inglês de "Chambre avec vue" de Henri Salvador, pelo próprio. Do CD com o mesmo nome, editado pela Blue Note. Reencontrei o disco através da Janela Indiscreta.

Um quarto com vista para ...
Se possível, de onde se possam ver as coisas do alto. Imaginar os percursos do som da IF, entrando por uma janela, poisando na cabeceira de alguém. No meio da noite. A promessa de voltar.
Em antena ( e também na Internet ) o que há de mais próximo da Íntima Fracção chama-se Vidro Azul. Vale a escuta e a visita ao blog.
Entretanto acabei de passar pelo IF-NO-AR. A sugestão deixada por MrDeltaSun já vai aqui : "Quanto custa uma frequência ?".
Calma.
Há longos longos anos que não sentia o que é passar um fim-de-semana sem a Íntima Fracção.
Se estivesse hoje no ar, teria passado uma das canções (suaves) de sempre na IF :
JE NE PEUX PLUS DIRE JE T'AIME
de Jacques Higelin.
O disco é de 1979. Utilizei-o pela primeira vez logo no primeiro ano da IF (1984). Foi o Paulo Eno Marques que mo emprestou. No Natal desse ano, chega a Manela Albuquerque - a prima, da EMI (Valentim, Vadeca ...) e dá-me o disco de presente. Um duplo vinil.
Há muitos anos que já não utilizo o vinil, mas esta música atravessou toda a história da IF. Hoje, tê-la-ia utilizado de novo. Conta o estado actual da minha relação com a TSF, com quem estou casado há 14 anos.
Je ne peux plus dire je t'aime
Ne me demande pas pourquoi
Je ne ressens ni joie ni peine
Quand tes yeux se posent sur moi
Si la solitude te pèse
Quand tu viens à passer par là
Et qu'un ami t'a oubliée
Tu peux toujours compter sur moi
Je ne peux plus dire je t'aime Hm Hm
Sans donner ma langue à couper
Trop de serpents sous les caresses
Trop d'amours à couteaux tirés
Si dure que soit la solitude
Elle te ramène à ton destin
La loi du grand amour est rude
Pour qui s'est trompé de chemin
Je ne peux plus dire je t'aime
Ne me demande pas pourquoi
Toi et moi ne sont plus les mêmes
Pourquoi l'amour vient et s'en va
Si la solitude te pèse
Quand le destin te mène ici
Et qu'un ami t'a oubliée
Tu peux toujours compter sur moi
Et qu'un ami vienne à manquer
Tu peux toujours compter sur moi

Ao Lourenço,
que comprou uma Rolleiflex no momento em que deviam ser compradas : anos 50.
Ao Lourenço,
um cavaleiro andante que deixou milhares de "retratos" noutros tantos milhares de casas.
Ao Lourenço,
a quem garanto que, se ninguém tomar contar da Rollei, esteja descansado que eu trato dela.
Well this could be the last time
This could be the last time
Maybe the last time
I don't know. Oh no. Oh no
The Rolling Stones em Coimbra, na noite da despedida da IF à TSF.

São os Stones ou os Pink Floyd ?

Estes são os Rolling Stones.

Mick Jagger correndo na noite de Coimbra ... em direcção ao "futuro incandescente".
Eu não estava no estádio. Era a última noite da IF na TSF. O concerto acabou a tempo. Os milhares de pessoas nas ruas lembraram-me a ENORME diferença entre um espectáculo de massas e um programa de rádio para ouvir sózinho.
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