

E, no entanto ...
A tradição só surge quando o desejo ou visão do futuro necessita de uma base onde se apoiar. O futuro inventa o passado.

PUGET SOUND - um conceito que une três projectos musicais : "The boy with the broken leg", "Daily Misconceptions" e "Electric Marbles". Editado em parceria pela Bor Land e Essay Collective, o disco pode ser descarregado (MP3) aqui.
Se querem um bom exemplo, escutem também aqui "Into marbles". Há alguma atmosfera IFneana.
O lugar da IF.
Parto durante a noite para o lugar invulnerável, luminoso no seio da inexistência. Parto para onde a paz progride como uma planta vivaz, um ouro irretornável.
Interessa-me apenas o inabdicável.
Sempre à espera de um sinal, de uma resposta, da intimidade de uma esperança.
Amor incondicional.

Últimos dias de Verão. Gaivotas em terra. IF ao mar. Imaginário. " Quereria que o condicional não nos condicionasse, mas que nos tornasse mais sóbrios, que não nos submergisse num passado impossível nem nos exilasse para um futuro improvável." Ánguelov
E.
Coisas que Robert Bresson escreveu (sobre Cinema) e que se aplicam também à Rádio.
"Novidade não é originalidade nem modernidade".
Lembra-se de Rousseau : Eu não procurava fazer como os outros nem de modo diferente.
"Cinema, Rádio, televisão, revistas são uma escola de desatenção : olhamos sem ver, ouvimos sem escutar."
"O que os nossos olhos e ouvidos exigem não é a pessoa verídica, mas a pessoa verdadeira."
"O ouvido leva-nos para dentro. Os olhos, para fora."
Estas afirmações consolam. Apenas. É preciso que se mantenham vivas na memória. Eu sei ! ... curta.


Às vezes, a escrita sobre ele é mais bela do que aquilo que fizemos.
É por isso que chamo a atenção para ela.
Num tempo desperançoso, ela toca-me como a cadência longínqua e nostálgica de um Adufe.

A Íntima Fracção não induz ao sono. Induz ao sonho.
Esta foi outra bela ideia sobre a IF. Há dias, dita por um físico, o que é sempre muito mais rigoroso e irrefutável. Induzir, vem do latim inducère, «levar para dentro». Certeiro, Professor Carlos Fiolhais.

When life was slow and oh, so mellow
De que é feita a Íntima Fracção ?
Tenho 16 anos. Uma rapariga loura, alta, beija-me furiosamente dentro de um automóvel (porquê ?).
Estou apaixonado e sei logo que não é por ela. A estes beijos, prefiro os outros que chegam em cartas de papel azul claro (perfumado ? Rochas, Avon, Chanel ?).
Setembro era um mês em que tudo era ainda possível.
Try to remember the kind of September
When you were a tender and callow fellow.
Try to remember, and if you remember,
Then follow... follow... follow me ...
A IF-Verão 2004.
A ouvir aqui.

" Da primeira vez, acendeu um círio numa pequena igreja italiana. Ficou surpreendido com a beleza da chama e o gesto pareceu-lhe menos idiota. Porquê privar-se desde então do prazer de criar uma luz ? Recomeçou e a este gesto delicado (inclinar o novo círio sobre o círio iluminado, esfregar docemente os dois pavios, encher-se de prazer com o atear da chama, encher os olhos desta luz íntima e forte) foi associando votos cada vez mais vagos que englobavam - pelo receio da escolha - "tudo o que não corre bem no mundo." (R.Barthes)
É tão difícil manter o ânimo, que aqui fica esta luz solidária com a iniciativa da Ânimo, do António Colaço. Por "tudo o que não corre bem no mundo". E é tanto !
Media.
Neste momento, quase toda a gente com responsabilidades de edição mediática, procura imagens da mais brutal e cobarde acção política directa dos últimos anos (que nos tenham contado). Como é preciso dizer (alimentar ?) algo sobre o assunto, lançaram-se dezenas de informações que se revelaram inconsistentes.
A SIC correu a criar os grafismos "promocionais" do drama. A segurar as famosas audiências. Não se perderam os ensinamentos do criador. O espectáculo, agora, chama-se "Terror na escola".
Na RTP 1, "excepcionalmente", interrompeu-se a transmissão do jogo da selecção dos sub-21, por causa do final (terrível) da crise. A verdade é que há muito a situação tinha atingido o nível de tragédia, mas o Mouravitch só tinha satélite para a hora do Telejornal e os outros canais estavam a começar os seus noticiários das 20 horas. JRSantos aparece entusiasmado. Transmite até uma estranha sensação de contentamente, que nada tem a ver com alegria. Apenas entusiasmo, frenesim. Fala alto, levanta-se. Dirige-se para um écran onde está preparado um grafismo sobre a situação (como são rápidos). Mais uma vez, "apanhado" pelas circunstâncias. Lá longe, "aquilo".

É nesta altura que me faz falta a IF. "The bright side of the moon".
(David Sylvian)
PC lembrou-me que esta música passava, por esta altura, na IF.
Está neste disco. Passei-o pela primeira vez, graças ao João Costa.
September, demora 1'18''.

The sun shines high above
The sounds of laughter
The birds swoop down upon
The crosses of old grey churches
We say that we're in love
While secretly wishing for rain
Sipping coke and playing games
September's here again
September's here again
Para ouvir, aqui.
"Behind two hills ... a swimming pool" - MÚM
Há várias.
"Behind two hills ... another swimming pool".
Na IF, os sons e as suas combinações remetem para as imagens. Por isso, quando se encontram os sítios, eles lembram música.
utilizando :
Introdução : indicativo da IF - Mar de Outubro (Sétima Legião)
# Booker T. Jones & MG's : Summertime
# Múm : Behind two hills, a swimming pool
# Isan : First date (with Jumble Sale)
# Spektrum : Shall i jump
# Beach Boys : excerto de God only knows (só vozes); Caroline, no (instrumental)
# Jesus&Mary Chain : extracto de Surfin' USA
# Nouvelle Vague : Love will tear us apart
# Lawrence : Somebody told me
# D.Sylvian&R.Sakamoto : World citizen (excerto); World citizen (i won't be disappointed)
# KLF : Madrugada eterna
# John Zorn : The good, the bad and the ugly
# The Album Leaf : Moss mountain town
# Destroyer : Your blues
# Dimitri from Paris : Welcome abord ; Okinawa love
# People like us : San Frandisco
# Tba : intr.detec.sys
# Astrud Gilbert : Once upon a summertime
# All night radio : All night radio ( IF remix )Ainda : " Úuuuuuuuu ...", retirado da versão remisturada por Bill Laswell de "Is this love" (Bob Marley) - Dreams of Freedom.
Sons dispersos ao longo do programa :
mar, mergulhos para uma piscina, nadar, água que corre, vidro a partir-se, trovoada, mar calmo e sons de praia, gaivotas, radio a ser sintonizado, deitar coca-cola num copo, tv zapping, mar-ondas, fogo de artifício.
Textos :
próprios e mais um retirado do blog "Saudades de Antero" de Frederico Mira George.
IF editada com CoolEditPro.
A Íntima Fracção - Verão 2004, ouve-se aqui.
Obrigado Paula Simões. Obrigado Pedro Pais. Obrigado ESEC-Radio on line.
Obrigado a todos os que ainda acreditam. Que ouvem. Que querem ouvir. Que enviam mails. Que deixam mensagens.
Há um traço azul no futuro incandescente.
Íntima Fracção do Verão 2004.
Podem ouvir ou fazer o download (e ouvir quando quiserem).
Vamos acreditar que este Verão ainda tem alguma coisa para nos dar !
É o nome de um filme realizado em 1959 por Joseph L. Mankiewicz. Um clássico com Elizabeth Taylor, Katharine Hepburn e Montgomery Clift.



Através de qualquer destes fotogramas, entra-se no trailer do filme.
Bruscamente, no Verão passado - quarenta e cinco anos depois, este título assalta-me com a força de todas as imposições.
Basta ! Não quero mais chuva em Agosto ...

A ideia de solidão desapareceu. Parecia-me agora que estava toda a gente em casa. O cimento molhado tornou-se igual ao dos domingos de Inverno.

Ao princípio da noite, da noite que era (é) a da Íntima Fracção, um skyline menos carregado, mas ainda com nuvens.

Depois, recebi um mail sobre a IF (sim, ainda os recebo, de ouvintes que suponho serem dos inabdicáveis).
" Sei que não é um e-mail muito animador e
provavelmente já deve estar farto de lamentações, mas
eu necessitava queixar-me, e dizer que a minha vida é
um pouco mais pobre, sem a Intima Fracção.
As musicas, os sons, as palavras, os silencios, tudo
alternado num ritmo só encontrado na atmosfera da
Íntima Fracção, fazem muita falta, (e tenho certeza
que não é só a mim)."
Estas mensagens têm sobre mim um duplo efeito. Primeiro, deixam-me arrasado. Onde estará este ouvinte ? Onde ouviria ele a IF ? Em que condições ? Há quanto tempo ? Porquê ? Será que terei mesmo conseguido, no meio da noite, como dizia Chevalier, "o misterioso contacto do coração" ? Depois, retomo o folgo, acredito e olho para o fim do dia a tornar-se numa clara madrugada.
Há sempre um traço azul no futuro incandescente !

Entrando por esta última imagem, há uma pequena mensagem que vem do fundo do coração da Íntima Fracção. É prosaico, mas é isto que quero dizer a todos os que ainda enviam mensagens.
São magníficos os locais de que se parte quando se é obrigado.


Passagem pela noite. A primeira noite de Agosto. A cidade, de passagem. O som. Somebody told me. Lawrence.
Persistentemente. Coleccionando sons. Prontos a navegar sobre as ondas. A poisar nos corações.
Talvez encontre a Íntima Fracção.
Esta noite, quando entrei no Smart, tive uma estranha sensação. Na rádio, Mar de Outubro da Sétima Legião, logo seguido da Virginia Astley. Pareceu-me olhar para mim próprio, de fora e sem ser ao espelho. Como se eu fosse um outro que, desesperadamente, olha para mim sentado num estúdio de rádio há vinte anos. O engano esgotante da memória. Não quero repetir nada. Quero apenas regressar, como aquele que se perdeu e, para retomar o caminho em frente, tem de voltar ao ponto de partida por que é aí que sabe guiar-se pelas estrelas.
O responsável por esta estranheza foi o Nuno Ávila (um caso de amour fou pela rádio) surfando nas ondas da RUC.
Agora, preparam-se as homenagens a Carlos Paredes. Tinha sido muito mais justo que, ao longo dos anos, se tivesse feito alguma coisa para que Paredes não fosse um génio a ter que dividir a vida entre um serviço público burocrático e a sua Arte.
Lembro Carlos Paredes a pedir-me mil desculpas por não autorizar a gravação de um espectáculo. Eu estava apenas a cumprir ordens. A produção tinha falhado redondamente. E o Carlos Paredes a dar-me o número de telefone de casa, a convidar-me para lá aparecer, a garantir uma entrevista, uma coisa diferente, uma espécie de compensação que me esperaria lá por Benfica. O que o Carlos Paredes não queria era que eu pensasse que se tratava de uma birra de artista. O homem não sabia de nada, e quando entrou no palco para um pequeno teste de som, deparou-se com todo aquele equipamento.
Era (é !) um enorme Artista e um homem simples.
Está aberta a caça às homenagens ...
Os pequenos são homenageados em vida (e de que maneira !). Os grandes, quando o são, já não lhes serve para nada.





