Estive mergulhado num cocktail de entusiasmo e desespero. Isto dá uma mistura estranha. Comecei por ouvir (e voltar a ouvir) as Pet Sounds Sessions. Os momentos de experiências, erros e correcções, que vamos ouvindo sempre com a voz de Brian Wilson em primeiro plano, fazem-me compreender o entusiasmo do arqueólogo perante a descoberta de qualquer peça que, finalmente, lhe dê a exlicação procurada. São gravações com 38 anos ! Muito longe das tecnologias digitais. Era mesmo preciso tocar e cantar.
Depois, voltei ao meu pequeníssimo estúdio para misturar (finalmente) a IF do Verão 2004. O que pretendia fazer não se consegue com limitações tecnológicas (algumas enormes). Começo a não saber se a IF (ou eu ?) se encaminha para a Rádio ou para a Banda Sonora. Ou para a composição, simplesmente.
Agora, vou pedir que a coloquem online e split man ! , citando ainda B.Wilson em The little girl i once knew.
Bruscamente, no Verão passado.

É o nome de um filme realizado em 1959 por Joseph L. Mankiewicz. Um clássico com Elizabeth Taylor, Katharine Hepburn e Montgomery Clift.















Através de qualquer destes fotogramas, entra-se no trailer do filme.

Bruscamente, no Verão passado - quarenta e cinco anos depois, este título assalta-me com a força de todas as imposições.

Basta ! Não quero mais chuva em Agosto ...



pouco para dizer ...

No dia em que tinha decidido fotografar o fascínio da cidade deserta, na manhã de um domingo de Agosto, encontrei um skyline cinzento chuva.







A ideia de solidão desapareceu. Parecia-me agora que estava toda a gente em casa. O cimento molhado tornou-se igual ao dos domingos de Inverno.







Ao princípio da noite, da noite que era (é) a da Íntima Fracção, um skyline menos carregado, mas ainda com nuvens.







Depois, recebi um mail sobre a IF (sim, ainda os recebo, de ouvintes que suponho serem dos inabdicáveis).

" Sei que não é um e-mail muito animador e

provavelmente já deve estar farto de lamentações, mas

eu necessitava queixar-me, e dizer que a minha vida é

um pouco mais pobre, sem a Intima Fracção.

As musicas, os sons, as palavras, os silencios, tudo

alternado num ritmo só encontrado na atmosfera da

Íntima Fracção, fazem muita falta, (e tenho certeza

que não é só a mim)."


Estas mensagens têm sobre mim um duplo efeito. Primeiro, deixam-me arrasado. Onde estará este ouvinte ? Onde ouviria ele a IF ? Em que condições ? Há quanto tempo ? Porquê ? Será que terei mesmo conseguido, no meio da noite, como dizia Chevalier, "o misterioso contacto do coração" ? Depois, retomo o folgo, acredito e olho para o fim do dia a tornar-se numa clara madrugada.

Há sempre um traço azul no futuro incandescente !







Entrando por esta última imagem, há uma pequena mensagem que vem do fundo do coração da Íntima Fracção. É prosaico, mas é isto que quero dizer a todos os que ainda enviam mensagens.



A magnífica capa do Libération que mostra Cartier-Bresson em New York, 1935.



Uma das mais belas, e inesperadas, fotos tiradas pelo fotógrafo em 1968.
Precisava de estar aqui muito tempo. O suficiente para apanhar o ritmo do mar. O necessário para partir quando me apetecesse e não quando fosse obrigado.

São magníficos os locais de que se parte quando se é obrigado.











Passagem pela noite. A primeira noite de Agosto. A cidade, de passagem. O som. Somebody told me. Lawrence.



Persistentemente. Coleccionando sons. Prontos a navegar sobre as ondas. A poisar nos corações.



Por uns dias vou à procura das ondas.

Talvez encontre a Íntima Fracção.



Esta noite, quando entrei no Smart, tive uma estranha sensação. Na rádio, Mar de Outubro da Sétima Legião, logo seguido da Virginia Astley. Pareceu-me olhar para mim próprio, de fora e sem ser ao espelho. Como se eu fosse um outro que, desesperadamente, olha para mim sentado num estúdio de rádio há vinte anos. O engano esgotante da memória. Não quero repetir nada. Quero apenas regressar, como aquele que se perdeu e, para retomar o caminho em frente, tem de voltar ao ponto de partida por que é aí que sabe guiar-se pelas estrelas.

O responsável por esta estranheza foi o Nuno Ávila (um caso de amour fou pela rádio) surfando nas ondas da RUC.



Agora, preparam-se as homenagens a Carlos Paredes. Tinha sido muito mais justo que, ao longo dos anos, se tivesse feito alguma coisa para que Paredes não fosse um génio a ter que dividir a vida entre um serviço público burocrático e a sua Arte.

Lembro Carlos Paredes a pedir-me mil desculpas por não autorizar a gravação de um espectáculo. Eu estava  apenas a cumprir ordens. A produção tinha falhado redondamente. E o Carlos Paredes a dar-me o número de telefone de casa, a convidar-me para lá aparecer, a garantir uma entrevista, uma coisa diferente, uma espécie de compensação que me esperaria lá por Benfica. O que o Carlos Paredes não queria era que eu pensasse que se tratava de uma birra de artista. O homem não sabia de nada, e quando entrou no palco para um pequeno teste de som, deparou-se com todo aquele equipamento.

Era (é !) um enorme Artista e um homem simples.

Está aberta a caça às homenagens ...

Os pequenos são homenageados em vida (e de que maneira !). Os grandes, quando o são, já não lhes serve para nada.





Como entendo bem os surfistas que esperam as ondas.

World Citizen

World Citizen

 
I want to travel by night
Across the steppes and over seas
I want to understand the cost
Of everything thats lost
I want to pronounce all their names correctly
 
World Citizen
World Citizen
 
 
Só um ouvinte de longa data da IF poderia lembrar-se disto.

"That summer feeling", de Jonathan Richman and the Modern Lovers - Julho de 1984 - Rough Trade - 12". Este tema foi gravado nos Sunset Studios, em Burbank - 1982. Houve depois, já nos anos 90, uma versão deplorável.

O Pedro lembra-se disto tudo, e de ter ouvido a original na IF. É este o disco.







Ora oiçam AQUI.
O mundo já pouco tem para nos oferecer, parece muitas vezes constituir-se de pouco mais do que barulho e receio, mas o certo é que a erva e as árvores continuam a crescer. Quando um dia a terra estiver completamente coberta de caixotes de betão, as nuvens continuarão a correr no céu e adquirir sempre novas formas, e aqui e ali as pessoas, por intermédio da arte, precisarão de manter uma porta aberta para o divino.



Hermann Hesse







Claude Monet



Ssshhhhhhh ........ escutem !




15 anos de RÁDIO UNIVERSITÁRIA DO MINHO.

A resistência destas rádios, fazem delas faróis que ainda nos dão alguma esperança no meio do mar quase morto da rádio em Portugal.
Mas ... afinal, que idade tenho ?

Como (e onde ...) se cruza a memória e o futuro ?

O Mário, no Retorta, faz uma reflexão exemplar sobre o "novo".



A música, é um espelho desta questão.

Ouvir "Love will tear us apart" dos Joy Divison, hoje, no projecto Nouvelle Vague, dá que pensar e ouvir.



O blog ÂNIMO, mantido pelo eterno criativo, solidário e "sensitive" António Colaço, completou um ano.

Ainda bem que há estes locais onde se fala a mesma língua.


I use to get

Flowers from girls in their bloom

and I use to get

Letters with a smell of perfume

I use to be handsome and popular

But what can I say

It didn't take long til I called it a day

But I'm older now, much older than I was when I was young








Sinto quase a mesma nostalgia quando volto a ouvir Jay Jay Johanson (1997) ou os Beach Boys (1966).

É esta a essência da IF.

Para alguns, isto deve estar errado.



Trato-me por tu



Ele. Procura o espaço de intimidade que lhe permita tratar-se por tu. Impossível. Descobrirá que precisa de mais.



Há um ano que deixa palavras, imagens e sons. Tudo para sentir. Impossível compreender.



Nunca chegará a nenhum lado. Não há caminho. Faz-se caminho ao andar. A única possibilidade é andar.



Trato-o por tu. Trata-me por você.

Um dia, reencontrar-nos-emos.




Gosto deste último disco dos King of Convenience. Há um certo mistério neste duo norueguês. São de Bergen e parece que cada um anda para seu lado. Um deles estuda. A sério. Não abdica de ser psicólogo. O outro passa mais tempo fora da Noruega. Sempre que regressa a casa, compõem. Mas também há histórias de MDs através do correio e de troca de e-mails.

Gostava de estar em Montreux (Suíça) no próximo dia 15, no Miles Davis Hall. Lá estarão os Kings of Convenience, no famoso Festival que sempre desejei cobrir para a rádio, o que nunca fiz.



Gold in the air of summer,

you'll shine like gold in the air of summer.




As músicas ouvem-se entrando pela capa do disco.









No dia do funeral de Sophia de Mello Breyner, vi e ouvi na televisão (pública!) um repórter rapaz/sagaz perguntar a uma senhora que estava no Rossio, no meio da euforia pré-desilusão futebolística : "Então ... este dia é mais ou menos feliz do que o 25 de Abril ?" !!!



Esta é a madrugada que eu esperava

O dia inicial inteiro e limpo

Onde emergimos da noite e do silêncio

E livres habitamos a substância do tempo




25 de Abril - Sophia de Mello Breyner







Será que se tivesse lido este poema ainda perguntava o mesmo ? Será que alguém lhe deu a ideia de perguntar aquilo ?

Será que o rapaz é sagaz ?

Será que ainda vai ser repórter por muito mais tempo ?

Receio que sim.



" Que se lixe a Taça ! ".

Esta era uma expressão que ouvia com frequência quando era miúdo. Claro que a frase continha uma série de valores semânticos. Hoje, digo-a eu.

Com a Grécia, as coisas começaram a correr mal antes do campeonato começar. Lembro-me de um anúncio na imprensa, do BES, que dizia : Vamos deixá-los em ruínas ! ... Ideia de mau gosto, como se viu.

O que mais me irritou não foi Portugal ter perdido a final. O que mais me irritou foram alguns políticos a aproveitar a boleia do Euro. Foram os comentários aos jogos (excepto o comentado por Mourinho ... afinal ele sabe mesmo mais do que eu pensava). Foram as realizações televisivas. Patéticas. Pimbas. Deslumbradas ! Havia meios a mais ! O que não havia era necessidade de os querer utilizar todos ao mesmo tempo (até o 2º golo de Portugal contra a Holanda mal se viu, tal a paranóia das infinitas repetições). E, acima de tudo, o futebol é um jogo colectivo, e estas realizações tentaram sempre mostrar o contrário.

O que não percebi : quando um jogador (em plano aproximado) passava a bola, havia um zoom sobre ele e só depois nos davam a ver para onde tinha ele passado a bola ... Realização para provocar a participação do espectador? Não foi o "Onde está o Wally?", mas sim o "Onde está a bola?".

Que se lixe a Taça !